
Há homens que nascem ricos, homens que ficam ricos, homens que parecem ricos e, muito mais numerosos que os três primeiros somados, homens que chegam ao fim do mês fazendo contas. A literatura sempre preferiu os três primeiros. A estatística brasileira se ocupa do quarto, e é dele que trata esta coluna, ainda que eu comece pelo terceiro, porque é em quem tem alguma folga que o mecanismo se deixa observar com clareza. Quem vive apertado sabe desde cedo que está preso, ao passo que quem aparenta conforto demora a descobrir.
Chamemos-lhe João, como se chamam 114,6 mil catarinenses, o nome masculino mais comum do estado segundo o Censo. Não é ninguém em particular, e é por isso mesmo que é tanta gente. Homem de bons modos, camisa bem passada, opiniões firmes sobre economia, embora a sua própria já andasse pedindo socorro havia algum tempo. Tinha carro relativamente novo, telefone comprado três semanas antes, frequentava restaurantes aos sábados e possuía uma coleção de parcelas que, reunida num único documento, poderia ser chamada de autobiografia.
Trabalhava, recebia o salário e pagava as contas em dia. Não era irresponsável nem dado a extravagâncias, e o problema nunca esteve nas despesas grandes. Um jantar porque a semana havia sido difícil, uma televisão porque a antiga já não combinava com a sala, uma viagem porque os amigos estavam viajando, um carro um pouco melhor porque a família merecia: nada disso arruína uma vida quando tomado isoladamente. Ocorre que as parcelas pequenas têm uma qualidade admirável, que é a de saber se multiplicar. O cartão foi ficando íntimo, cada despesa inesperada virava promessa de resolver no mês seguinte, e o mês seguinte nunca chegava sozinho, pois trazia consigo o posterior e os juros, que jamais esquecem o caminho de casa.
Machado de Assis descreveu esse homem muito antes de existir manual de educação financeira, e chamou-o Rubião. O Rubião do Quincas Borba herda uma fortuna, monta casa, empresta dinheiro a quem o bajula e gasta os últimos anos sustentando uma aparência sem lastro. A tolice explica pouco desse personagem, cujo verdadeiro motor é a necessidade de que os outros continuem enxergando o que ele havia sido. Há sempre algum teatro social no consumo, e o crédito oferece ao indivíduo a chance de vestir hoje a roupa que o salário só permitiria amanhã. A conta, quando chega, não costuma se importar com a personagem.
Ela está chegando para muita gente, inclusive aqui. Em julho, 76,9% das famílias catarinenses estavam endividadas, segundo a Peic da Fecomércio SC, o maior patamar do período recente. À primeira vista o estado se sai bem na comparação, já que a mesma pesquisa apurou 82% de famílias endividadas no país, sexto recorde mensal consecutivo. Santa Catarina também atrasa menos: 23,6% de inadimplentes contra 29,8% do Brasil, num índice que vem caindo e já se aproxima da média histórica catarinense, de 22%.
O conforto termina quando se olha o que está por baixo. As famílias de Santa Catarina comprometem 29,9% da renda mensal com o pagamento de dívidas, e 9,5% delas afirmam não ter condições de quitar o que devem. Houve ainda uma mudança silenciosa na composição do endividamento: o cartão de crédito perdeu espaço ao longo do ano, caindo para 69,6% entre as famílias endividadas, enquanto ganhou terreno o financiamento de veículos. Trocar cartão por linha longa tem cara de amadurecimento orçamentário, e às vezes é isso mesmo. Também pode significar que a dívida de impulso virou dívida de prazo, com data marcada para os próximos anos.
No país, os sinais vêm menos ambíguos. A inadimplência das famílias medida pelo Banco Central chegou a 5,8% em julho, o maior patamar de toda a série iniciada em março de 2011, e nas operações de crédito livre alcançou 7,8%, também recorde. O caso mais eloquente é o do consignado privado, que atingiu 10% em julho, primeira vez em dois dígitos, depois de estar em 8,7% em junho. Falamos da modalidade em que a parcela é descontada da folha antes de o salário chegar ao trabalhador, com carteira que dobrou de tamanho em doze meses e hoje soma R$ 117,7 bilhões. Quando esse tipo de crédito começa a falhar, a explicação comportamental perde a força.
Uma ironia difícil de engolir atravessa esses números, porque o Brasil não está diante de uma multidão desempregada. A taxa fechou o trimestre encerrado em julho em 5,3%, perto das mínimas históricas. Se tanta gente deve com o mercado de trabalho funcionando, convém perguntar o que acontecerá quando ele parar de ajudar.
É neste ponto que a conversa deixa de tratar do caráter de João e passa a tratar de política. O Copom reduziu a Selic para 14% ao ano em agosto, na quarta queda seguida de 0,25 ponto. A taxa média cobrada das famílias no crédito livre estava em 64% ao ano em junho, e o rotativo do cartão recuou de 442,4% para 436,2% ao ano em julho, número que o Banco Central apura em base anual e que quase ninguém chega a pagar por doze meses corridos, o que não o impede de dizer o que diz. Entre a taxa que o Banco Central define e aquela que chega ao consumidor existe uma distância que nenhuma disciplina orçamentária doméstica atravessa. Dá para cancelar assinaturas, cortar o jantar de sábado e adiar a viagem de julho sem que nada disso encoste na diferença entre 14 e 436. Crédito continua não sendo renda, e parcela continua não sendo preço, duas confusões que o mercado tem pouco interesse em desfazer.
Do outro lado do balcão a história se repete. Em junho, 9,1 milhões de empresas brasileiras estavam inadimplentes, acumulando R$ 232,9 bilhões em dívidas vencidas e uma média de R$ 25,5 mil por CNPJ, segundo a Serasa Experian, no maior número já registrado. Num estado que se orgulha do parque produtivo que construiu, do têxtil do Vale do Itajaí ao metalmecânico do Norte, esse dado não chega como estatística distante: aparece no fornecedor que atrasa e no capital de giro que encareceu.
A engrenagem é circular e razoavelmente previsível. Juros altos encarecem o crédito, o crédito caro aperta o orçamento das famílias, famílias endividadas consomem menos, empresas vendem menos, empresas precisam de mais giro, e o giro também está caro. A roda gira sem que ninguém consiga dizer com segurança quem cai primeiro.
Existem ainda os mecanismos que transformam esperança em produto, e as apostas online são o exemplo mais cruel deles, porque para quem está apertado a promessa de multiplicar dinheiro depressa soa menos absurda do que deveria. O endividado às vezes compra esperança, e há sempre quem esteja disposto a vendê-la. O assunto merece coluna própria, e terá.
Por ora fico com o que interessa: uma dívida compromete a renda de hoje e hipoteca a de amanhã. O salário do ano que vem começa a ser gasto agora, o décimo terceiro nasce com destino certo, a promoção deixa de ser conquista e vira oportunidade de respirar, e o dinheiro que financiaria um projeto acaba pagando uma decisão antiga. Quando isso alcança três em cada quatro famílias de um estado, saímos do terreno das escolhas individuais e entramos no da política pública.
Educação financeira costuma ser tratada como luxo de quem pretende investir na Bolsa, quando funciona melhor como proteção social, e talvez seja a política de melhor relação entre custo e efeito que Santa Catarina tenha hoje à mão. Ensinar uma criança a compreender juros compostos rende tanto quanto ensiná-la a resolver uma equação, e um jovem que aprende a reconhecer um golpe se poupa de uma dívida que levaria anos para desaparecer. Nada disso resolve sozinho a distância entre a Selic e o rotativo, e o combate ao endividamento não termina na porta do banco: passa pela escola, pela empresa, pela família e pela capacidade do poder público de criar um ambiente em que juros, emprego e renda não empurrem o cidadão, mês após mês, para a próxima parcela.
Quanto a João, soube que finalmente quitou o cartão. Cancelou assinaturas, reduziu restaurantes, adiou a troca do carro e descobriu, com algum espanto, que continuava sendo a mesma pessoa: a vida não acabou porque o jantar ficou mais barato, os amigos não sumiram porque a viagem foi adiada, e ninguém deixou de cumprimentá-lo porque o carro tinha alguns anos a mais. Não ficou rico, e no fim daquele mês, pela primeira vez em muito tempo, recebeu o salário inteiro, sem que uma parte dele já pertencesse ao passado. Rubião nunca chegou lá.