Raony Bourscheidt

Há no mercado financeiro uma explicação para o brasileiro não investir, e ela tem duas qualidades raras: é curta e cabe em qualquer palestra. Falta educação financeira. Repeti essa frase durante boa parte dos meus dezoito anos de mercado, primeiro numa mesa de operações, depois como head de renda variável no Brasil e C-level da XP em Nova York, e hoje à frente da MELVER, que já passou de um milhão de alunos. Cito o currículo a título de agravante, porque meia verdade nenhuma viaja tão longe quanto a que sai da boca de quem entende do assunto. Sigo convicto de que a educação financeira é necessária. Passei a suspeitar que seja insuficiente, e a suspeita nasceu no dia em que troquei o hábito de observar quem aceita o convite para investir pelo de observar quem recusa.

O sujeito que mantém o dinheiro na poupança sabendo que ela rende pouco costuma ser descrito, nas apresentações do setor, como desinformado. Convivi com uma quantidade razoável deles e raramente encontrei um desinformado de fato. Encontrei gente fazendo uma conta diferente da minha, com razões que merecem ser ouvidas antes de serem corrigidas.

As razões começam pelo óbvio. Dois em cada três brasileiros que não investem respondem, quando perguntados, que não sobra dinheiro no fim do mês, e contra a aritmética não existe curso que possa muito. Vem em seguida uma explicação que o mercado prefere não sublinhar, por ser constrangedora para quem vive de vender risco: com a Selic em 14% ao ano, o título público entrega ao poupador uma remuneração que boa parte dos gestores do mundo passaria a carreira inteira tentando alcançar. Num país assim, deixar de comprar ação não exige trauma nenhum. Exige calculadora.

Essas duas explicações dão conta da maior parte do fenômeno, e quem as ignora está vendendo alguma coisa. Sobra uma terceira, que não aparece em planilha e que eu escuto com frequência em sala de aula, sempre em uma de duas versões. A educada, que vem de quem ainda espera ser convencido: será que é seguro investir? E a franca, que vem com aquele meio sorriso de quem já sabe que vai constranger o professor: e se for tudo mentira?

A pergunta tem história. E a história tem nomes.

O que vem a seguir são alguns dos casos ocorridos por aqui na última década, não todos. São os primeiros que me vieram à cabeça, e faço questão da ressalva porque, beirando os quarenta, ando desconfiado da minha própria memória, que se tornou seletiva como toda memória que se preze e já me pregou peças em assuntos de muito menor volume.

Comecemos por 2017, quando o país descobriu, em uma única sessão, que a Bolsa pode acionar o circuit breaker por causa de uma gravação. Meses depois de a Operação Carne Fraca expor irregularidades no setor de carnes, os controladores da JBS fecharam acordos de colaboração premiada com a Procuradoria-Geral da República, que alcançaram o topo do poder. Quando parte do conteúdo veio a público, em 17 de maio, uma gravação de Joesley Batista com o então presidente Michel Temer desencadeou uma crise política e um terremoto nos mercados. No pregão seguinte, em 18 de maio, o Ibovespa chegou a cair 10,47% e acionou o circuit breaker, o primeiro desde a crise de 2008, antes de fechar o dia em queda de 8,8%. Duas semanas depois, a holding controladora assinou um acordo de leniência de R$ 10,3 bilhões, o maior já firmado no país. O episódio entrou para o vocabulário do mercado como Joesley Day, o que informa bastante sobre a nossa relação com esses acontecimentos: nomeamos a crise em homenagem a quem a provocou, e com certa intimidade.

Em 2019, a Via Varejo confirmou ter manipulado provisões trabalhistas, com impacto estimado em até R$ 1,4 bilhão. O detalhe que merece registro é como a companhia tomou conhecimento do assunto: por denúncia anônima. Há algo de comovente numa empresa que precisa de um bilhete sem assinatura para descobrir o próprio balanço.

Em 2020 veio o IRB, e aqui a coisa sobe de patamar artístico. Uma gestora apontou publicamente que o lucro contábil não correspondia à geração de caixa, o que é grave e razoavelmente frequente. A diretoria, para sustentar o preço da ação, fez circular a informação de que a Berkshire Hathaway havia se tornado acionista da companhia. A empresa de Warren Buffett desmentiu. Inflar lucro é uma infração conhecida e catalogada. Inventar um sócio, e logo aquele sócio, exige um tipo de imaginação que a legislação brasileira ainda não classificou com o rigor devido.

No mesmo ano, a CVC concluiu que erros e manipulações no balanço somavam R$ 362 milhões em receitas que não estavam onde diziam estar. Uma operadora de turismo vive de vender destino, e alguns dos seus números viajaram sem sair do lugar.

Em 2023 chegou a Americanas, e com ela o recorde. Vinte bilhões de reais em inconsistências acumuladas por anos em operações de risco sacado, anunciadas em 11 de janeiro pelo presidente que havia assumido nove dias antes e que renunciou na mesma tarde. A ação caiu 77%. O que veio depois é a parte que o investidor pessoa física guarda melhor do que qualquer gráfico: três anos passados, ninguém foi julgado. O ex-presidente da companhia foi indiciado ao lado de outros doze executivos e mudou-se para a Espanha. A empresa, que valia R$ 10,8 bilhões antes do rombo, vale hoje perto de um décimo disso. O acionista minoritário cumpriu sua pena em quarenta e oito horas. Os responsáveis seguem aguardando a deles, sem aparente desconforto.

Alguém dirá que tudo isso é assunto de renda variável, e que quem prefere dormir tranquilo compra título ou entrega o dinheiro a um gestor profissional. Os dois anos seguintes trataram de desfazer o consolo.

Em agosto de 2025, a Operação Carbono Oculto revelou que uma facção criminosa mantinha ao menos quarenta fundos de investimento, entre multimercado e imobiliários, com cerca de R$ 30 bilhões sob gestão, além de uma fintech que funcionava como banco paralelo e movimentou mais de R$ 46 bilhões em quatro anos. O investidor que perdia noites comparando taxa de administração entre dois fundos descobriu que talvez houvesse outra pergunta a fazer antes daquela.

Em novembro do mesmo ano, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master, e o controlador da instituição foi preso no aeroporto de Guarulhos quando tentava deixar o país. A investigação apura a criação de carteiras de crédito falsas, posteriormente vendidas a outro banco, num rombo multibilionário tratado pelas autoridades como crime contra o sistema financeiro. Quem tinha CDB do banco foi coberto pelo Fundo Garantidor de Créditos até o limite legal, e vale entender o que isso significa: o poupador foi socorrido por um fundo que os demais bancos abastecem, e que esses bancos abastecem com dinheiro que sai, por caminhos discretos, do preço que todos nós pagamos por serviço financeiro no Brasil. Ninguém almoça de graça, nem quando o almoço é chamado de garantia.

Sete episódios, nove anos, e um padrão que se repete com pontualidade incômoda. Entre o anúncio da fraude e o prejuízo do investidor passam-se minutos. Entre o anúncio da fraude e a punição do responsável passam-se anos, quando se passam.

Em Santa Catarina, 262.966 pessoas investiam em renda variável na B3 ao fim de 2025, num estado de 8,18 milhões de habitantes. São pouco mais de três em cada cem catarinenses. Não atribuo esse número às fraudes, e seria desonesto fazê-lo, porque juros altos e renda curta explicam a maior parte da distância entre o catarinense e a bolsa. O que os escândalos explicam é outra coisa, mais difícil de medir e bem mais cara de recuperar, que é a disposição de tentar outra vez depois de ter se queimado, e a de recomendar a experiência a um filho.

Mercado de capitais funciona sobre uma premissa simples, quase ingênua, que é a de o número informado no balanço corresponder ao que existe dentro da empresa. Cada vez que essa premissa é rompida sem consequência proporcional, alguém paga a conta, e não são apenas os acionistas daquela companhia. O país inteiro passa a embutir um prêmio de desconfiança no preço de tudo, o que encarece capital para quem quer produzir e reduz o retorno de quem quer poupar.

Educação financeira ajuda, e insisto que ajuda muito. Ela ensina a diversificar, a ler um balanço, a desconfiar de retorno alto prometido com risco baixo. O que ela não faz é substituir o trabalho de uma autoridade que investigue depressa e de um Judiciário que julgue antes de o réu se estabelecer no exterior. Enquanto essa segunda parte não vier, a primeira segue enxugando gelo com muita competência.

Poucos personagens desta coluna estão presos, as empresas seguem operando. O próximo caso da lista também já existe, apenas ainda não tem nome. Provavelmente será anunciado por fato relevante, numa sexta-feira à noite, com o mercado fechado, e na segunda-feira alguém explicará que o brasileiro precisa aprender a investir e a diversificar.

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