
Houve progresso na educação brasileira, e o Ministério da Educação fez questão de anunciá-lo logo no primeiro slide: a distância que nos separa dos países da OCDE em leitura caiu de 102 para 58 pontos em vinte anos, e em matemática, de 131 para 92. É uma notícia excelente, desde que ninguém pergunte como ela foi obtida.
Peço licença para apresentar os personagens, porque as duas siglas andam mais citadas que compreendidas. A OCDE é a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico, o clube dos países ricos, do qual o Brasil não faz parte e no qual tenta entrar desde 2017, com a negociação formalmente aberta em 2022. O PISA é a prova que essa organização aplica a cada três anos a estudantes de quinze anos em quase noventa países, e que se interessa menos pela matéria decorada que pela capacidade de usá-la: interpretar um texto, resolver um problema com números, entender um dado científico. É o exame que conta ao mundo o que os nossos adolescentes sabem fazer quando a escola acaba.
Pergunto de onde veio a aproximação. Entre 2006 e 2025, o Brasil saiu de 393 para 408 pontos em leitura, quinze pontos em dezenove anos, enquanto a média dos países da OCDE caía de 495 para 466. Dois terços da nossa aproximação com o mundo desenvolvido vieram do desenvolvimento alheio andando para trás. O pelotão da frente cansou, e nós comemoramos a redução da distância sem trocar de marcha.

Em matemática a façanha é ainda mais delicada. O Brasil foi de 370 para 377 pontos, uma melhora de sete pontos ao longo de dezenove anos, com erro padrão de 5,5. Quem já trabalhou com estatística reconhece esse número: chama-se ruído. Levamos quase duas décadas para produzir uma variação que a própria margem de erro tem dificuldade de distinguir do acaso, e o documento oficial a apresenta na seção intitulada “Resultados indicam avanços da aprendizagem no Brasil”.
O ciclo mais recente merece o mesmo exame. Entre 2022 e 2025, o Brasil caiu dois pontos em leitura, caiu dois pontos em matemática e subiu seis em ciências. De três disciplinas, duas pioraram. O material do ministério prefere a comparação com 2006, que é generosa, e a exibe em sete tabelas consecutivas.
Nada disso, porém, se compara ao número que o relatório da OCDE traz e que o resumo brasileiro esqueceu de mencionar. Entre os estudantes brasileiros de quinze anos, 43,8% estão abaixo do nível 2 em ciências, leitura e matemática. O nível 2 é o piso, a linha que a própria OCDE define como o mínimo para participar da vida social e econômica de maneira minimamente autônoma. A média dos países da OCDE nesse indicador é 19,7%. No outro extremo, o Brasil tem 1,8% de estudantes de alto desempenho, contra 11,9% da OCDE.
Traduzo, para não restar dúvida: de cada dez jovens brasileiros prestes a concluir a escolaridade obrigatória, mais de quatro não conseguem interpretar um texto, resolver um problema com números e entender uma informação científica em nível elementar. E menos de dois em cada cem alcançam o topo. É um sistema que produz muito fundo e quase nenhum teto.

Dos 89 sistemas de ensino com nota em matemática, apenas dezoito ficaram abaixo do Brasil, que empatou com o Líbano. A lista dos dezoito merece leitura atenta, porque nela estão Guatemala, Paraguai, Camboja, Quênia, Zâmbia e Ruanda, nações com uma fração do nosso Produto Interno Bruto, do nosso orçamento educacional, da nossa capacidade institucional e do nosso tempo de república. O que partilham conosco é a desculpa.
No domínio novo desta edição, resolução de problemas com ferramentas computacionais, o país marcou 406 pontos contra 500 da média da OCDE, atrás de Chile, Uruguai, México, Costa Rica, Peru e Colômbia. O Brasil que se orgulha do próprio setor de tecnologia forma adolescentes que operam mal a tecnologia que consomem doze horas por dia.
Diante desse quadro, o ministério montou uma seção chamada “Informações contextuais”, com três destaques. O primeiro celebra que 81% dos estudantes estão em escolas com restrição ao uso de celular. O segundo informa que apenas 16% consideram a escola uma perda de tempo, abaixo dos 24% da OCDE. O terceiro comunica que os jovens brasileiros estão entre os mais engajados do mundo com a agenda ambiental. São dados verdadeiros e, tomados em si, agradáveis. Colocados ao lado de 43,8%, adquirem a qualidade involuntária de um elogio à vista do hospital feito por quem deveria estar falando do paciente.
A honestidade obriga a registrar o que há de real no outro lado, e há. O próprio relatório da OCDE observa que o Brasil é o único país em que o desempenho se manteve estável nas três disciplinas desde 2015 enquanto a cobertura da rede crescia quatro pontos percentuais. Isso significa que o país colocou mais adolescentes pobres dentro da escola sem que a média despencasse, o que é uma conquista verdadeira e difícil, e que nenhum crítico sério deveria omitir. Manter a nota enquanto se inclui quem estava de fora tem muito mais mérito que subir a nota expulsando os fracos, prática que outros sistemas dominam com elegância.
O problema é o que vem depois da inclusão. O mesmo relatório mostra que a condição socioeconômica explica 15,9% da variação de desempenho dos estudantes brasileiros, e que apenas 9,6% dos nossos alunos pobres conseguem ser academicamente resilientes, isto é, tirar notas altas apesar da origem. Entre os quinze e os dezesseis anos, o país já decidiu o futuro de quase todo mundo. E, no ciclo 2022 a 2025, enquanto a distância entre ricos e pobres em matemática diminuía na maioria dos países avaliados, ela aumentou em exatamente três: Filipinas, Turquia e Brasil.
Alguém dirá que Santa Catarina é outra história, e em parte é. No Ideb de 2025, o estado tirou 6,7 nos anos iniciais do ensino fundamental, acima da média nacional de 6,3 e da meta fixada para a etapa. Segue-se então aquilo que já conhecemos de outros indicadores catarinenses: a vantagem existe enquanto a criança é pequena. Nos anos finais do fundamental a nota cai para 5,4, contra 5,3 do país, e no ensino médio, exatamente a etapa que o PISA avalia, Santa Catarina marca 4,5, que é rigorosamente a média do Brasil. O Paraná, ali ao lado e com a mesma cara, chegou a 5,1. Perdemos pelo caminho tudo o que havíamos construído até o quinto ano.