
Um sistema de cultivo que reduz os custos de produção em média 33%, diminui o uso de agrotóxicos e ajuda a enfrentar períodos de seca, calor extremo e chuvas intensas completa 30 anos em Santa Catarina. O Sistema de Plantio Direto de Hortaliças (SPDH), desenvolvido com participação da Epagri, também contribui para aumentar a produtividade e melhorar as condições de trabalho no campo.
Segundo estimativa da Epagri, a tecnologia gerou impacto econômico de R$ 126,7 milhões em 2025. Entre os principais benefícios estão o aumento da produção e a redução dos gastos com agroquímicos e mão de obra.
O dia 23 de outubro marca o Dia Nacional do Plantio Direto. Em 2025, o sistema recebeu reconhecimento da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) como modelo tecnológico com potencial de aplicação mundial.
Em Santa Catarina, a área de adoção do plantio direto cresceu 3.322 hectares entre 2022 e 2025, conforme dados do Plano ABC+SC. A meta estadual é alcançar 7,7 mil hectares até 2030.
Chuchu tem aumento de 100% na produtividade
Os resultados variam conforme a cultura agrícola. No cultivo de chuchu, estudos apontam que a produtividade dobrou nos últimos cinco anos em lavouras que trocaram o modelo tradicional pelo SPDH. Em 2025, o ganho econômico chegou a R$ 149 mil por hectare, segundo a Epagri.
Nessas áreas, o sistema também permitiu eliminar o uso de herbicidas e fungicidas e reduzir em 80% a aplicação de inseticidas.
O método combina cobertura permanente do solo com plantas vivas e palhada, rotação de culturas, revolvimento mínimo da terra e manejo da nutrição vegetal. As práticas ajudam a preservar a umidade, melhorar a estrutura do solo, favorecer a atividade biológica e reduzir a incidência de pragas e doenças.
De acordo com o extensionista rural Marcelo Zanella, coordenador de olericultura da Epagri, o conjunto dessas técnicas busca fortalecer a saúde das plantas e diminuir as perdas nas lavouras, estimadas em cerca de 35%.
Agricultores recuperaram lavouras e reduziram gastos
Em Angelina, na Grande Florianópolis, o produtor Thiago Walzburger adotou o sistema depois de enfrentar dificuldades para controlar fungos no solo. A situação chegou a ameaçar a continuidade da atividade familiar.
“Chegou um ponto que pensamos que teríamos que parar. Foi aí que buscamos o SPDH e, com ajuda da Epagri, começamos a retomar a produtividade da terra. Há cinco anos, 100% da nossa lavoura é de SPDH”, relata.
Formado em Agronomia, Thiago trabalha com a família na produção de aproximadamente 330 mil brócolis em 11 hectares. Um dos principais ganhos, segundo ele, foi a redução de cerca de 30% na necessidade de contratação de mão de obra, especialmente para adubação e aplicação de defensivos.
Em Antônio Carlos, também na Grande Florianópolis, Edésio Schmitt e Maria Lúcia Klein Schmitt adotaram o SPDH há 18 anos. A decisão veio após problemas de compactação do solo e alta incidência de insetos e nematoides.
“Os principais ganhos para nós foram a diminuição no uso de agrotóxico e adubo e não precisar fazer o revolvimento do solo”, afirma Edésio.
Na propriedade de 3,7 hectares, o casal cultiva chuchu, mandioca, pitaia e maracujá. A experiência transformou a família em referência nacional no sistema, atraindo pesquisadores e visitantes. Segundo o produtor, mais de 1,5 mil pessoas já conheceram a lavoura.
Cobertura do solo ajuda a enfrentar mudanças climáticas
A manutenção de uma camada de vegetação e palhada protege a terra contra a erosão e contribui para regular a disponibilidade de água. Em períodos de chuva intensa, o sistema favorece a infiltração da água e reduz o risco de encharcamento. Durante a seca, ajuda a conservar a umidade do solo.
A diversidade biológica também contribui para a recuperação das plantas após eventos climáticos adversos, favorecendo a continuidade da produção.
Em Angelina, o agricultor Ryan Ehardt seguiu o método utilizado pelos pais no cultivo de hortaliças. Ele produz brócolis, couve-flor e repolho e destaca a proteção oferecida pela cobertura do solo.
“Como o solo está sempre coberto por palhadas, não temos erosão e não perdemos tantas verduras em função de chuvas, seca e calor”, explica.
Menos agrotóxicos e melhores condições de trabalho
Além dos resultados econômicos e ambientais, o SPDH pode melhorar a qualidade de vida dos agricultores ao reduzir a exposição a produtos químicos e diminuir a necessidade de operações frequentes na lavoura.
Marcelo Zanella relata o caso de uma família produtora de chuchu em Anitápolis que praticamente eliminou o uso de agrotóxicos após a adoção do sistema. Antes da mudança, o agricultor havia sido hospitalizado três vezes por intoxicação, segundo relato da mãe dele ao extensionista.
O método também modifica a forma de lidar com a vegetação espontânea. Em vez de manter o solo constantemente limpo, o sistema admite a convivência controlada entre hortaliças e outras plantas, quando benéfica ao cultivo.
A mudança, porém, exige adaptação. Thiago Walzburger conta que o pai e o avô, acostumados a trabalhar por mais de três décadas com máquinas para revolver o solo, tiveram dificuldade para aceitar as novas práticas.
Dez anos depois da transição na propriedade, a avaliação da família é positiva. O avô de Thiago costuma resumir a mudança com uma observação sobre a limpeza da lavoura: “Ele volta da lavoura e diz: a gente não suja mais nem a bota”.
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