
O assassinato de uma policial penal na Grande Florianópolis, em 2012, interrompeu uma história de vida e deixou marcas que permanecem até hoje. Um relato sobre a violência do crime organizado, a perda de quem amamos e a decisão de continuar.
26 de outubro de 2026
Há acontecimentos que dividem nossa vida em duas partes: o antes e o depois. Para mim, essa divisão tem uma data: 26 de outubro de 2012. Naquele dia, um crime que abalou a Grande Florianópolis mudou para sempre minha vida e a história de nossas famílias. Deise, policial penal que havia completado apenas 30 anos poucas semanas antes, no dia 5 de outubro de 2012, foi assassinada em uma emboscada na garagem de nossa residência.
As investigações apontaram que o verdadeiro alvo do atentado seria eu. Ela teria sido morta por engano. Na época, eu exercia a função de diretor do Complexo Penitenciário do Estado, em São Pedro de Alcântara, considerado o berço da organização criminosa em Santa Catarina. Quatorze anos depois, a dor permanece. Mas também permanece a convicção de que o enfrentamento ao crime organizado não pode ser abandonado.
A última conversa
Naquele 26 de outubro, eu retornava de Brasília, depois de mais de vinte dias participando de um curso de especialização junto à Diretoria Penitenciária de Operações Especiais. Buscava aperfeiçoar meus conhecimentos para desempenhar melhor minhas funções no sistema prisional catarinense. Durante a viagem de retorno a São José, em uma viatura, conversei com Deise pelo telefone. Organizamos nosso final de semana, combinamos o que faríamos e aonde iríamos. Era uma conversa comum, cheia de planos simples, como tantas outras que fazem parte da vida de quem acredita que terá o amanhã ao lado de quem ama.
Não imaginava que aquela seria uma de nossas últimas conversas. Já estava escuro quando recebi uma ligação informando que Deise havia sido atingida por um disparo de arma de fogo, após uma emboscada na porta de nossa casa.
Naquele instante, meu mundo começou a desmoronar.
As equipes de socorro estavam prestando atendimento. Enquanto seguíamos pela estrada, eu tentava obter informações, na esperança de receber uma notícia melhor. O sinal do celular caía constantemente, aumentando a angústia e a sensação de impotência. Até que veio a notícia que eu mais temia.
Havíamos perdido a Deise.
Ela havia completado 30 anos no dia 5 de outubro de 2012. Era policial penal, embora naquele período exercesse atividades administrativas na então Secretaria de Estado da Justiça e Cidadania. Tinha sonhos, planos e uma vida inteira pela frente.
Uma emboscada e muitas perguntas
Naquela noite, criminosos ligados a uma organização criminosa aguardaram a chegada de Deise à nossa residência. Quando ela entrou na garagem e saiu do veículo, foi assassinada. Segundo as investigações, o atentado teria sido planejado para me atingir.
Entretanto, existe uma circunstância que, mesmo depois de tantos anos, continua me causando indignação. Antes de chegar em casa, Deise havia parado em um mercado a pouco mais de cem metros da residência. Desceu do carro, realizou suas compras e retornou ao veículo. Um dos criminosos estava posicionado junto a um orelhão próximo à garagem.
Diante dessas circunstâncias, minha convicção pessoal é de que os responsáveis tiveram condições de perceber que era Deise, e não eu, quem chegava à residência. Como poderiam não saber quem estavam atacando, se tiveram a oportunidade de observar sua chegada e seus movimentos antes da emboscada?
Mesmo assim, o ataque aconteceu. Essa é uma questão que permanece comigo.
Por que eu havia me tornado um alvo?
Naquele período, o sistema prisional catarinense enfrentava a atuação de organizações criminosas que buscavam manter influência sobre a rotina das unidades e utilizar diferentes mecanismos para obter recursos financeiros. O Complexo Penitenciário do Estado, considerado o berço da organização criminosa em Santa Catarina, era um dos principais espaços de atuação e articulação desses criminosos.
Durante minha ausência, policiais haviam interceptado drogas que, conforme as informações recebidas na época, seriam levadas por um policial penal a um traficante preso no Complexo Penitenciário do Estado. Os informes indicavam que integrantes da organização criminosa teriam reagido à apreensão determinando minha execução. Acredito, porém, que esse episódio tenha sido apenas o momento em que decidiram agir. As razões eram mais amplas.
A organização criminosa vinha perdendo espaço, influência e fontes de arrecadação dentro da unidade prisional em que eu atuava. Havíamos implantado procedimentos voltados ao fortalecimento da disciplina, à segurança dos servidores e ao cumprimento da legislação. Uma das medidas foi o retorno da utilização de uniformes pelos presos. Outra foi a proibição da entrada de cigarros. Essa última decisão teve consequências que iam muito além da rotina administrativa.
O financiamento do crime organizado
Na época, os cigarros representavam, segundo as informações que tínhamos, uma fonte de arrecadação para integrantes da organização criminosa. Familiares de presos eram obrigados pelos criminosos a levar grandes quantidades desses produtos durante as visitas. Posteriormente, parte dos cigarros era retirada da unidade por outras pessoas que realizavam visitas e revendida fora do estabelecimento prisional.
O dinheiro obtido com a comercialização era destinado ao financiamento de atividades criminosas. Como não havia limitação da quantidade de cigarros que poderiam entrar na unidade, o volume de entrada e saída era gigantesco. Esse mecanismo contribuía para a capitalização da organização criminosa, que utilizava o Complexo Penitenciário do Estado, considerado seu berço em Santa Catarina, como um dos espaços de articulação de suas atividades.
A proibição interrompeu esse mecanismo de arrecadação, atingindo uma fonte de recursos da organização criminosa. Havia também uma razão legal para a medida: o cumprimento das normas que restringiam o fumo em ambientes coletivos fechados. Não se tratava simplesmente de proibir cigarros. Tratava-se de impedir que uma unidade prisional fosse utilizada como instrumento de financiamento do crime organizado.
Também adotamos restrições ao uso de determinados calçados, especialmente tênis, que vinham sendo utilizados em situações de dano ao patrimônio público, agressões a servidores e tentativas de fuga. A disciplina passou a ser exigida conforme as normas legais. O objetivo era claro: assegurar que a administração prisional fosse exercida pelo Estado, e não por organizações criminosas.
O preparo dos servidores e o uso legal da força
Outra frente de trabalho foi a qualificação profissional. Ministrei gratuitamente treinamentos de técnicas de intervenção tática prisional, preparando servidores para atuar em situações de crise, preservar vidas, proteger colegas e restabelecer a ordem dentro dos limites legais.
Deise também possuía formação nessa área e já havia participado de intervenções prisionais. Conhecia os riscos envolvidos nessas atividades e compreendia a importância da preparação técnica dos servidores. Sempre acreditei que o enfrentamento à violência dentro das prisões exige preparo técnico, disciplina e responsabilidade.
A força do Estado não pode ser confundida com arbitrariedade. Seu emprego deve respeitar a legislação, a necessidade da intervenção e a proporcionalidade da resposta. Com procedimentos mais técnicos, buscávamos enfrentar situações de indisciplina e violência de maneira segura, documentada e juridicamente amparada.
As medidas implantadas reduziram, na minha avaliação, o espaço de atuação da organização criminosa dentro da unidade. Ela perdia influência, mecanismos de arrecadação e capacidade de impor suas próprias regras. Acredito que esse conjunto de mudanças tenha contribuído para que eu me tornasse um alvo.
A resposta que escolhi dar
Depois do assassinato de Deise, precisei tomar uma decisão sobre minha própria vida. Poderia me afastar das atividades que exercia. Poderia abandonar a área de intervenção prisional e buscar outro caminho profissional.
Mas decidi continuar.
Não por vingança. E muito menos por acreditar que qualquer conquista profissional pudesse compensar aquela perda. Continuei porque acreditava no trabalho que desenvolvíamos e porque sabia que Deise também se orgulhava dele.
Nos anos seguintes, participei de alguns dos maiores conflitos prisionais da década passada. Essas experiências ampliaram meus conhecimentos e reforçaram minha convicção de que o sistema prisional precisa de servidores preparados para enfrentar situações extremas dentro da legalidade. Também continuei compartilhando conhecimentos e ensinando técnicas de intervenção prisional.
Se antes os criminosos tinham apenas um profissional com quem se preocupar, hoje existem muitos servidores capacitados para realizar intervenções com técnica, disciplina e respeito à lei. O conhecimento foi multiplicado. E considero essa uma das respostas mais significativas que pude dar à violência que atingiu nossa família.
Deise conhecia aquela realidade. Sabia dos riscos da profissão e das dificuldades enfrentadas pelos servidores. Orgulhava-se da maneira como eu conduzia o trabalho e acreditava que nossas ações poderiam contribuir para a segurança pública de Santa Catarina. Sua morte não interrompeu esse compromisso.
Quatorze anos depois, o que permanece?
O tempo passou. A vida exigiu que continuássemos caminhando, mas existem perdas que jamais deixam de fazer parte de quem somos. Ainda me lembro daquela viagem, da conversa pelo telefone, dos planos para o final de semana e da angústia de tentar conseguir informações. Lembro da esperança de receber uma notícia melhor.
E da ligação que mudou tudo.
O assassinato de Deise não interrompeu apenas uma vida. Destruiu planos, sonhos e uma história que ainda estava sendo construída. O crime organizado não atinge somente suas vítimas diretas. Suas ações alcançam famílias inteiras, deixando consequências que permanecem muito depois que os acontecimentos desaparecem dos noticiários.
Existe uma frase que passou a traduzir uma das verdades mais dolorosas da minha vida:
“Se você quer matar um homem uma vez, atire nele. Mas, se quiser matá-lo mil vezes, mate quem ele ama.”
Quem perde alguém dessa maneira não sofre apenas no dia da despedida. Sofre nas datas que deveriam ser comemoradas, nas conversas que ficaram pela metade e nos momentos que jamais poderão ser vividos.
Ao recordar os 14 anos desse crime, não escrevo movido pelo desejo de vingança. Escrevo para preservar a memória de Deise e compartilhar uma experiência que também ajuda a compreender os efeitos da violência sobre aqueles que trabalham na segurança pública e suas famílias.
O enfrentamento ao crime organizado exige continuidade, investimento em qualificação profissional, disciplina institucional e respeito à legislação. O Estado precisa exercer sua autoridade legítima, sem abrir mão dos direitos e das garantias previstos em lei. A segurança pública não se constrói apenas com coragem. Exige conhecimento, planejamento, responsabilidade e profissionais preparados.
Deise não voltou. Nenhuma conquista profissional será capaz de preencher o vazio que sua ausência deixou. Mas continuo acreditando que cada servidor capacitado, cada vida preservada e cada avanço na segurança prisional representam uma contribuição para que outras famílias não precisem enfrentar a mesma dor.
Hoje permanecem a saudade, as boas lembranças e a certeza de que não podemos baixar a guarda diante do crime organizado. Aqueles que acreditaram que poderiam interromper meu trabalho com a violência não conseguiram.
Continuei. Compartilhei conhecimentos. Ajudei a preparar outros profissionais. Mas nenhuma dessas conquistas diminui a dor de saber o preço que nossa família pagou.
26 de outubro de 2012. Uma data que jamais esquecerei.
Deise, o tempo passou, mas sua memória permanece. E enquanto eu viver, sua história continuará sendo lembrada.
Por Carlos Alves é policial penal de Santa Catarina desde outubro de 2002, formado em Tecnologia em Comunicação Institucional, com pós-graduação em Gestão de Segurança Pública e Ciências Políticas.
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