Convenção oficializa Merisio ao Governo e marca lançamento da frente de esquerda


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Redação Santa Catarina em Pauta

Merisio fez um forte discurso de enfrentamento à direita – Imagem: Divulgação

A esquerda catarinense deu, na noite hoje, o pontapé oficial na disputa pelo Governo do Estado. Reunindo cerca de três mil pessoas, segundo a organização, a convenção realizada na Assembleia Legislativa homologou a candidatura do ex-deputado Gelson Merisio (PSB) ao Governo do Estado, tendo como vice a ex-deputada Ângela Albino (PDT). Também foram confirmadas as candidaturas de Décio Lima (PT) e Afrânio Boppré (PSOL) ao Senado.

Muito além da formalização das candidaturas, a convenção serviu para apresentar o discurso que deverá nortear a campanha da coligação: a defesa da democracia, a reaproximação de Santa Catarina com o Governo Federal e o enfrentamento político ao bolsonarismo no estado considerado um dos principais redutos da direita no país.

Ao discursar como candidato, Gelson Merisio foi recebido sob aplausos e fez um discurso de aproximadamente 20 minutos. Ex-deputado estadual por sete mandatos e ex-presidente da Assembleia Legislativa, ele relembrou sua trajetória política, falou da aproximação com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 2022 e afirmou que a candidatura representa uma missão política muito maior do que diferenças ideológicas do passado.

Segundo Merisio, o momento exige união para enfrentar aquilo que classificou como ameaça à democracia e para recolocar Santa Catarina no centro do diálogo nacional. “A causa que nos traz até aqui é muito maior que as divergências que tivemos no passado. A causa que nos reúne é uma missão: reencontrar Santa Catarina com o Brasil e reeleger o presidente Lula.”

Em seguida, relembrou que a aproximação com Lula começou através de Décio Lima, quando foi levado para uma conversa com o então candidato à Presidência. “Naquele dia encontrei muito mais do que um ex-presidente. Encontrei um amigo forjado pela dificuldade, um brasileiro que venceu pelo trabalho. Daquele dia em diante, Lula ganhou um amigo para as horas boas e para as horas ruins”, afirmou.

Críticas ao bolsonarismo

O trecho mais duro do discurso foi reservado ao enfrentamento da direita. Merisio afirmou que a extrema direita tenta transformar o estado em uma vitrine nacional do bolsonarismo e disse que esse será um dos principais temas da campanha. Para sustentar esse argumento, citou a transferência do domicílio eleitoral de Carlos Bolsonaro, onde disputará uma vaga ao Senado, e ironizou o vereador de Balneário Camboriú Renan Bolsonaro, pré-candidato a deputado federal. Segundo o candidato, ambos simbolizam um projeto de fortalecimento do bolsonarismo no estado. “Nós não vamos permitir que se faça em Santa Catarina o que a extrema direita procurou fazer no Brasil. Eles trouxeram para cá dois bolsonaristas: o filho Carlos, candidato ao Senado, e o inimigo da sinapse lá de Balneário Camboriú, candidato a deputado federal. Junto com eles, trouxeram a vontade de transformar Santa Catarina em um bunker do bolsonarismo, fazendo daqui o estado que deveria servir de exemplo para o restante do Brasil. A nossa missão é impedir que isso aconteça”, destacou.

Na avaliação de Merisio, Santa Catarina não pode aceitar ser conhecida nacionalmente por episódios de intolerância, violência política e radicalização ideológica. Sem citar o governador Jorginho Mello (PL), criticou a postura adotada pelo Governo do Estado e afirmou que o discurso de enfrentamento vem substituindo o diálogo institucional. “Querem vender ao Brasil uma Santa Catarina da arma em punho, do ódio e da divisão. Não é essa a Santa Catarina que nós vivemos. Somos um povo acolhedor, trabalhador, empreendedor e que recebe bem quem chega de outros estados e de outros países. Não somos um estado racista, nem feminicida. Essa não é a nossa identidade.”

Merisio também fez críticas à administração estadual, citando a infraestrutura, saúde, educação e segurança pública como áreas que, em sua avaliação, não evoluíram nos últimos anos. “Em três anos e meio não foi duplicado um quilômetro de rodovia. Não foi construída uma vaga de presídio. O efetivo das polícias diminuiu. Os professores continuam entre os piores salários do Brasil. A saúde perdeu indicadores importantes em relação aos estados vizinhos. Mesmo assim dizem que fizeram trinta anos em três. Eu não sei onde isso aconteceu.”

Ao falar sobre a campanha, destacou que pretende reforçar a participação do Governo Federal no desenvolvimento do estado e defender uma relação institucional mais próxima entre Brasília e Santa Catarina. “As grandes obras dos últimos vinte anos tiveram a assinatura do presidente Lula. Isso precisa ser mostrado. Santa Catarina ficou de costas para o Brasil durante muito tempo e agora precisa voltar a dialogar com o Governo Federal. Vamos mostrar ao povo catarinense a Santa Catarina real, não a Santa Catarina da propaganda”, pontuou.

Ao encerrar sua fala, convocou a militância para a campanha e reafirmou que a prioridade será ampliar a votação do presidente Lula em Santa Catarina e conduzir a disputa estadual ao segundo turno.

Protagonismo feminino

Ângela Albino defendeu o protagonismo feminino – Imagem: Divulgação

A candidata a vice-governadora, Ângela Albino (PDT), fez um dos discursos mais emocionados da noite. Ex-vereadora de Florianópolis, ex-deputada estadual e ex-secretária de Estado, ela concentrou sua fala na defesa da democracia e do protagonismo das mulheres na política. Logo na abertura, lembrou que a presença feminina nos espaços de poder ainda é resultado de décadas de luta e afirmou que nenhuma conquista pode ser considerada definitiva.

Para ela, a candidatura representa todas as mulheres que abriram caminho na política catarinense e aquelas que ainda sonham ocupar posições de liderança. “Os direitos das mulheres não são permanentes. Foram conquistados com coragem, organização e luta. Justamente por isso precisam ser defendidos todos os dias. Recebo essa missão com humildade, gratidão e consciência da responsabilidade que ela representa. Essa candidatura não pertence a mim. Ela pertence às mulheres que abriram caminhos quando sequer podiam escolher seus próprios destinos”, destacou.

Em um dos momentos mais aplaudidos da convenção, respondeu às críticas de que Santa Catarina estaria se transformando em símbolo do extremismo político. Ângela lembrou personagens históricos que marcaram a política e a cultura catarinense para defender que o Estado possui uma tradição democrática muito maior do que a imagem construída nos últimos anos. “Aos que desejam transformar Santa Catarina em um berço do fascismo, nós respondemos que esta é a terra de Eglê Malheiros, Clair Castilhos, Salim Miguel, Antonieta de Barros, Manoel Dias e tantas lideranças que ajudaram a construir este Estado. Santa Catarina é um estado extraordinário da inovação, do trabalho, do empreendedorismo e da diversidade da nossa gente”, ressaltou.

Ao concluir, afirmou aceitar o desafio de disputar a eleição ao lado de Merisio em defesa da democracia e de uma Santa Catarina mais inclusiva.

Senado

Afrânio Boppré convocou a militância a enfrentar o avanço da extrema direita – Imagem: Divulgação

Os candidatos ao Senado também utilizaram a convenção para reforçar a necessidade de unidade entre os partidos da coligação. Afrânio Boppré (PSOL) afirmou que a eleição em Santa Catarina será uma das mais importantes do país e convocou a militância para enfrentar o avanço da extrema direita. Segundo ele, o Estado não pode ser apropriado politicamente pelo bolsonarismo. “A extrema direita quer se apropriar do que somos. Não vamos desistir de Santa Catarina. Santa Catarina é nossa, não é fascista e não é da extrema direita. A esperança em Santa Catarina tem nome: Gelson Merisio governador, Ângela Albino vice-governadora, Décio e Afrânio no Senado”, destacou.

Boppré também afirmou que a campanha deverá priorizar o voto em toda a chapa. “Cada companheiro tem uma missão: fazer campanha e votar no time do Lula de cabo a rabo. Não podemos permitir que nosso eleitor se perca durante a campanha. Estamos fazendo história e sendo protagonistas da mudança que o povo espera.”

Lima destacou a união da esquerda como o maior acontecimento político de SC – Imagem: Divulgação

Já Décio Lima classificou a convenção como o maior acontecimento político recente da esquerda catarinense e afirmou que a ampla aliança foi construída para defender valores democráticos. Segundo ele, o cenário eleitoral cria condições para que Merisio dispute o segundo turno e amplie a votação de Lula em Santa Catarina. Décio também destacou o simbolismo da presença feminina na chapa. Ao falar da disputa estadual, disse acreditar que a candidatura de Merisio amplia as chances de a esquerda chegar ao segundo turno. “Pela matemática, Merisio está no segundo turno. E, chegando lá, terá condições de construir uma aliança ainda maior para disputar o Governo do Estado.”

Presidentes nacionais

Paula Coradi afirmou que Santa Catarina será estratégica para a reeleição de Lula – Imagem: Divulgação

A presidente nacional do PSOL, Paula Coradi, afirmou que Santa Catarina terá um papel estratégico na reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ela defendeu a eleição de parlamentares comprometidos com um projeto de desenvolvimento social. “Queremos construir um país em que o trabalhador esteja no centro das decisões, em que os povos indígenas tenham seus direitos respeitados e em que a política volte a ser instrumento de transformação da vida das pessoas. Aqui em Santa Catarina estamos com o time completo do presidente Lula”, afirmou.

Edinho afirmou que Merisio amplia o diálogo com diferentes setores da sociedade – Imagem: Divulgação

O presidente nacional do PT, Edinho Silva, afirmou que a coligação vai muito além de uma aliança eleitoral. Segundo ele, trata-se da formação de um campo democrático para disputar os rumos políticos de Santa Catarina. “Não estamos construindo apenas uma coligação. Estamos construindo um campo democrático que fará a disputa real dos rumos de Santa Catarina”, destacou, completando que também contesta a imagem de que Santa Catarina teria aderido aos valores da extrema direita. “Não podemos aceitar que Santa Catarina seja vista como um estado que escolheu o fascismo, o racismo, a misoginia e todas as formas de preconceito. Essa não é a história do povo catarinense”, assinalou. Ao citar Gelson Merisio, afirmou que o candidato simboliza a possibilidade de ampliar o diálogo com diferentes setores da sociedade. “Se o Merisio pôde fazer essa escolha, todo o povo de Santa Catarina também pode. Chegou a hora de construirmos um estado forte, democrático e em sintonia com o Brasil.”

Chapa e candidaturas proporcionais

Durante a convenção também foram oficializados os nomes das suplências ao Senado. Conforme antecipado pela coluna do Marcelo Lula, Elaine Huber (PDT) e Fernanda Klitzke (PT) integrarão a chapa de Décio Lima, enquanto Luci Choinacki (PT) e Aparecida da Silva (PT) serão suplentes de Afrânio Boppré.

Na disputa proporcional, o PT lançará 30 candidatos à Assembleia Legislativa e 13 à Câmara dos Deputados. O PV terá duas candidaturas a deputado federal; o PCdoB apresentará duas candidaturas para deputado federal e duas para deputado estadual; o PSOL disputará com 28 candidaturas à Alesc e 17 para federal; o PSB lançará um candidato a deputado estadual e um a deputado federal; e o PDT terá chapa completa para deputado estadual e oito candidatos à Câmara Federal.

Com a convenção, a frente formada por PT, PSB, PDT, PSOL, PCdoB, PV e Rede inicia oficialmente a campanha com o objetivo de levar Gelson Merisio ao segundo turno da disputa pelo Governo do Estado e ampliar a votação do presidente Lula no Estado, considerado um dos principais redutos eleitorais da direita no país.