
Este editorial não é de apoio à esquerda, à direita ou a qualquer candidato. Jamais pediremos votos ou nos posicionaremos a favor de alguém. Isso cabe exclusivamente ao eleitor, e esse direito deve ser respeitado. Mas é nosso papel, como veículo de comunicação, provocar o pensamento crítico. E é nosso dever, como jornalistas, abordar com coragem os temas que precisam ser discutidos pelo bem da sociedade.
Também é importante destacar que este posicionamento não é voltado para a eleição presidencial. Que o eleitor escolha o próximo presidente, seja Lula ou Flávio Bolsonaro, de acordo com suas convicções.
Nossa manifestação é voltada para as eleições ao Senado e à Câmara Federal, que poderão intensificar uma mudança no perfil e na origem dos futuros representantes de Santa Catarina em Brasília. Portanto, o debate envolve as candidaturas de Carlos Bolsonaro (PL) e Renan Bolsonaro (PL), suas trajetórias políticas e as possíveis consequências de suas eventuais eleições para o estado.
A questão é saber se, nos próximos anos, outros políticos de diferentes estados, sem uma trajetória construída em Santa Catarina ou serviços prestados aos catarinenses, também passarão a buscar mandatos por aqui. Afinal, qual será a mensagem transmitida ao restante do país caso Carlos e Renan sejam eleitos? Que peso deve ser atribuído a um sobrenome conhecido ou à vinculação a determinado grupo político em comparação com as propostas apresentadas para o bem-estar dos catarinenses?
Neste momento eleitoral, sempre tão crucial para todos nós, Santa Catarina enfrenta um cenário particular. A candidatura de Carlos Bolsonaro foi definida em meio a pressões da direção nacional do PL, incluindo notícias sobre uma possível intervenção no diretório catarinense caso seu nome não fosse confirmado. O episódio expôs divergências dentro do próprio campo político ao qual o candidato pertence.
Essa situação nos provoca a fazer a seguinte pergunta: em que momento Santa Catarina, terra de Anita Garibaldi, Antonieta de Barros, Nereu Ramos, Lauro Müller, Hercílio Luz, Jorge Bornhausen e Luiz Henrique da Silveira, entre tantas lideranças de destaque ao longo de nossa história, passou a precisar importar candidatos?
Quando deixamos de reconhecer a competência dos políticos e das lideranças catarinenses, a ponto de aceitar que sejam substituídos por pessoas que têm como principal bandeira eleitoral seus sobrenomes? E aqui não se trata apenas de defender os catarinenses natos, mas também aqueles que, mesmo tendo nascido em outros estados, construíram suas vidas por aqui, estabeleceram raízes, tornaram-se catarinenses de fato e prestaram relevantes serviços à nossa sociedade.
Será que, por todos esses anos e décadas, nos enganamos em relação à nossa própria história, a ponto de percebermos que precisamos importar pessoas de outros estados, com outras culturas e raízes, para nos ensinar a fazer com que Santa Catarina seja um estado pujante?
Essas questões fazem parte do debate que antecede a votação de domingo. Quando o eleitor estiver na cabine, sozinho diante de sua consciência, terá a responsabilidade de decidir quem deverá representar Santa Catarina. É uma escolha que terá consequências. Afinal, depois de depositado o voto, não será possível reverter uma decisão que, no caso de Renan, terá efeitos por quatro anos e, no de Carlos, por oito.
No caso de Renan Bolsonaro, há questionamentos sobre seu conhecimento das principais pautas que serão debatidas na Câmara dos Deputados. Sua atuação pífia na Câmara de Vereadores de Balneário Camboriú incomoda até mesmo quem apoiou sua eleição. Chama a atenção sua dificuldade para compreender e discutir assuntos básicos de interesse da sociedade.
Além disso, há questões de seu passado que merecem esclarecimentos, como o episódio envolvendo empréstimos bancários. Renan foi investigado, indiciado e denunciado, mas a ação penal acabou sendo trancada pelo Superior Tribunal de Justiça.
A defesa alegou que Renan havia sido vítima de um golpe. Mesmo assim, o Zero Quatro firmou um acordo para quitar uma dívida de aproximadamente R$ 409 mil com o Santander. Também permanece sem esclarecimento público se ingressou com uma ação judicial contra o suposto golpista para recuperar o dinheiro. Na época, questionado sobre o assunto, seu advogado, Admar Gonzaga, afirmou que se tratava de uma questão pessoal. A pergunta que fica é: como alguém que afirma ter sido vítima de um golpe bancário paga a dívida contraída pelo suposto golpista, mas não esclarece se recorreu à Justiça para recuperar o valor?
Quanto a Carlos Bolsonaro, ele voltou a ser investigado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro em um suposto caso de rachadinha em seu antigo gabinete na Câmara de Vereadores. Entre as operações financeiras examinadas está a compra de um apartamento em Copacabana, em 2009, por R$ 70 mil, quando o imóvel tinha um valor de aproximadamente R$ 236 mil para fins tributários. Os investigadores também identificaram uma movimentação de R$ 60 mil envolvendo dinheiro retirado de um cofre bancário no dia da aquisição.
O Laboratório de Combate à Lavagem de Dinheiro e à Corrupção do Ministério Público também identificou que, em 2012, Carlos comprou um apartamento no Centro do Rio de Janeiro por R$ 180 mil. Segundo o relatório, a aquisição provocou uma evolução patrimonial incompatível com os rendimentos do então vereador naquele ano.
Há ainda outro aspecto da candidatura de Carlos que merece atenção: sua ausência em debates e sabatinas durante a campanha. Ele simplesmente ignorou os debates e ainda pressionou Carol de Toni (PL) a não comparecer. O recado deixado por ele é que não estudou as pautas de interesse do estado e que não tem interesse em saber, pois seu sobrenome já basta para se eleger, como se o eleitor catarinense não fosse crítico.
O fato é que precisamos compreender definitivamente que, tão importantes quanto as mudanças no Supremo Tribunal Federal, tão faladas por Carlos, são as pautas de Santa Catarina em Brasília. Entre elas estão um novo pacto federativo, que permita uma redistribuição mais justa dos recursos arrecadados pela União, investimentos em infraestrutura e logística, recursos para a agricultura e outras medidas necessárias ao nosso contínuo desenvolvimento.
E, para os eleitores que desejam candidatos ao Senado que discutam o STF, há outros nomes na disputa que também abordaram o tema durante a campanha.
Portanto, é necessário discutir se a representação de Santa Catarina em Brasília deve estar vinculada a um projeto político familiar. Moralizar o STF e estabelecer uma nova forma de indicação de ministros, inclusive com alternativas ao atual modelo de escolha pelo presidente da República e sabatina no Senado, são temas que exigem um debate institucional muito mais amplo.
Santa Catarina tem uma história política construída por lideranças de diferentes origens e correntes de pensamento. O debate sobre quem deverá representar o nosso estado em Brasília precisa considerar essa história, os compromissos assumidos e as consequências das escolhas feitas nas urnas. Portanto, votar em Carlos e Renan Bolsonaro é desconsiderar totalmente a história de um estado que sempre se diferenciou pela força de seu povo, tanto daqueles que nasceram aqui quanto dos que vieram para contribuir, e não para se aproveitar.











