Raony Bourscheidt

O futebol já estava no Brasil havia mais de meio século quando, em 16 de julho de 1950, quase duzentas mil pessoas emudeceram no Maracanã. Ghiggia fez o segundo do Uruguai, e o país levou uma geração para se recuperar de um silêncio. Foi preciso esperar oito anos, até a Suécia, para que Pelé, então com dezessete anos, nascido em Três Corações, chorasse amparado por Gylmar dos Santos Neves, o goleiro bicampeão do mundo, e devolvesse ao Brasil algo que a economia nunca lhe havia dado, que era a sensação de ser o melhor do mundo em alguma coisa.

Depois vieram o Chile de 1962, com Garrincha carregando a seleção nas pernas tortas depois que Pelé se machucou, e o México de 1970, que até hoje encerra qualquer discussão de bar. Aquele time tinha Tostão, Gérson, Jairzinho, Rivelino e Pelé em campo ao mesmo tempo, e terminou a final com um gol que passou por oito jogadores de linha até Carlos Alberto aparecer pela direita, chutando sem diminuir o passo. Vinte e quatro anos depois, em 1994, Taffarel caiu de joelhos no gramado da Califórnia e um país inteiro caiu junto. Em 2002, um homem que havia sofrido duas cirurgias no joelho, das que costumavam encerrar carreiras, fez oito gols em uma Copa e decidiu a final.

Nada disso é apenas esporte, e quem cresceu aqui sabe. O futebol foi, durante décadas, a única instituição brasileira que funcionava. Era a escada que um menino de várzea podia subir sem pedir licença, num país onde todas as outras escadas exigiam sobrenome. Era também o raro território em que as classes se encontravam de verdade: o mesmo jogo, no mesmo horário, com a mesma emoção, para quem ouvia no rádio de pilha e para quem assistia na sala com ar-condicionado. Em campos de terra batida espalhados por cidades pequenas, gente que não teria outra chance descobria que tinha talento, e às vezes o talento bastava.

Tudo isso foi vestido numa camisa. É por isso que importa o que está escrito nela.

Hoje, em boa parte dos casos, está escrito o nome de uma casa de apostas. Mais de trinta clubes das três primeiras divisões dependem desse dinheiro, entre eles quatorze dos vinte times da Série A e cerca de sessenta por cento da Série B. Em 2025 o setor colocou aproximadamente R$ 1,1 bilhão no futebol brasileiro, algo perto de oito por cento da receita dos clubes. Aqui em Santa Catarina, até a transmissão do Campeonato Catarinense de 2026 saiu com o selo de uma bet, de modo que o torcedor que liga o celular para ver o clássico já começa o dia sendo convidado a apostar nele.

A dependência é real e explica a reação dos dirigentes à proibição anunciada pelo governo. Explica, sem justificar.

Comecemos pela voz. Galvão Bueno narrou o tetra em 1994 e o penta em 2002, e para uma geração inteira o som daquelas duas madrugadas é a definição sonora de felicidade coletiva. Hoje ele é embaixador de uma casa de apostas. Em outubro de 2024 estrelou uma campanha que reconstituía o bordão do “Fala, Tino!” com o jornalista Tino Marcos, transformando a memória afetiva do torcedor em ferramenta de conversão comercial, sob a bandeira do jogo responsável. Em 14 de setembro deste ano, o órgão de defesa do consumidor ligado ao Ministério Público do Espírito Santo o notificou, ao lado de outros anunciantes, recomendando a rescisão dos contratos. Usar a lembrança do gol do Bebeto para vender aposta é um talento que eu preferiria que ele não tivesse descoberto.

A mesma notificação alcançou Neymar, embaixador global de uma plataforma, e Vinícius Júnior, que anuncia outra. São dois jogadores da seleção brasileira, e é aí que a coisa dói. O menino de dez anos que veste a camisa amarela no quintal não distingue o atleta do anúncio. Ele quer ser aquilo inteiro, inclusive a parte que aparece no intervalo. E o documento que embasou a notificação traz um dado que deveria interromper qualquer reunião de marketing: entre os usuários de apostas, 66,8% apresentaram comportamento de risco ou problemático, proporção que chega a 55,2% entre adolescentes.

Mais da metade dos adolescentes que apostam. Esse é o público que herda a camisa.

Faço essa conta dentro de casa. Na minha infância, o craque que aparecia no intervalo do jogo estava vendendo chuteira ou refrigerante. Na infância do meu filho, está vendendo casa de aposta. Uma geração separa as duas cenas, e o que entrou no lugar não é um produto qualquer: é o único que precisa de plataforma de autoexclusão.

Meu filho tem uma sorte que a maioria não tem. O pai dele trabalha com educação financeira e senta ao lado para explicar por que aquele anúncio bonito do intervalo é um péssimo negócio. Essa conversa acontece na minha casa por acaso de biografia. Pergunto pelas outras milhões de crianças que assistem ao mesmo jogo, veem o mesmo ídolo, ouvem a mesma promessa e não têm ninguém por perto para dizer que aquilo ali foi desenhado para elas perderem.

E há o caso que resume o tamanho da queda, que é o do meu próprio time. Sou corintiano, com tudo o que a frase carrega, e sei muito bem o preço de escrever o que vem a seguir numa roda de amigos. Escrevo assim mesmo. O torcedor reclama e passa; o pai de família olha o calção do time e não passa.

Entre 1982 e 1984, aquele clube produziu a Democracia Corinthiana, em que jogadores decidiam por voto desde a hora do almoço até a escalação, e em que Sócrates, médico formado, transformou a camisa em manifesto político ao entrar em campo com a frase “Dia 15 vote” às costas, em plena ditadura. Era um time que usava o uniforme para dizer alguma coisa ao país.

Em julho deste ano, o mesmo Corinthians fechou contrato de R$ 22 milhões, podendo chegar a R$ 31 milhões, para estampar no calção do time masculino a marca de uma plataforma de conteúdo adulto, do mesmo grupo que opera um site de anúncio de acompanhantes. O acordo foi parar no Ministério Público de São Paulo e no Conar, e abaixo-assinados juntaram dezenas de milhares de assinaturas. Em setembro, depois da medida provisória que proibiu as bets, o site de acompanhantes do mesmo grupo ofereceu R$ 120 milhões por um ano na cota de patrocinador máster, hoje ocupada por uma casa de apostas cujo contrato a proibição ameaça. Até a publicação desta coluna, o clube não havia respondido à proposta.

O detalhe mais eloquente do contrato, porém, é outro. A camisa do time feminino não leva a marca. No lugar dela, o clube estampa a campanha “Respeita as Minas”. A diretoria apresenta isso como cuidado, e é possível que sinceramente acredite nisso. Lido com atenção, é uma confissão: a marca não serve para a camisa das mulheres, e serve para o calção dos homens. Quem faz essa distinção sabe exatamente o que está vendendo.

Isso não faz dos clubes vítimas. Futebol brasileiro é um setor cronicamente endividado e mal administrado há décadas, que encontrou nas apostas uma saída rápida para contas que ele mesmo desarrumou. Quem assinou esses contratos sabia o que estava vendendo e sabia quanto ia receber por isso. Perder a receita vai doer, e não me ocorre razão alguma para que a conta dessa dor seja repartida com quem nunca foi sócio, nunca foi consultado e já paga caro por quase tudo neste país.

O que não se sustenta é a naturalidade. Em algum momento entre o gol de Carlos Alberto e agora, aceitamos que a coisa mais querida do país virasse painel publicitário de qualquer coisa que pagasse, e paramos de perguntar o que estava sendo vendido junto. O dinheiro existe, e o que mudou foi o critério de quem o aceita.

O jogo, esse, não mudou. A pelada de domingo continua acontecendo no campinho de terra, sem patrocínio, sem código promocional e sem narrador. O menino que vai driblar três e cair no chão rindo faz exatamente o mesmo que fazia em 1970. A bola é a mesma, o barulho da trave é o mesmo, e a alegria de ganhar de virada é a mesma.

Que a camisa volte a combinar com isso. Que ela sirva de novo para dizer de onde a pessoa vem, de que bairro, de que time o pai era, e não para informar onde se deposita. O futebol brasileiro já foi grande sendo pobre. Voltar a ser alegre custa menos que se imagina.

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