Ponte Anita Garibaldi: documentos apontam cabos rompidos e capacidade abaixo das margens de segurança


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Redação Santa Catarina em Pauta

Mário Motta teve acesso aos documentos que revelam os problemas estruturais da ponte – Imagem: Alesc

Materiais obtidos pelo deputado estadual Mário Motta (PSD), aos quais o Santa Catarina em Pauta teve acesso, apontam danos em cabos de protensão, limitações na capacidade resistente da estrutura e dificuldades para localizar registros técnicos da construção

Documentos obtidos pelo deputado estadual Mário Motta (PSD), aos quais o Santa Catarina em Pauta teve acesso, revelam detalhes sobre os problemas estruturais identificados na Ponte Anita Garibaldi, na BR-101, em Laguna. Os registros mostram que as investigações constataram o rompimento de cabos de protensão e indicaram que, nas condições verificadas, a capacidade resistente de uma das seções da estrutura não atendia integralmente às margens de segurança previstas nas normas para as cargas móveis consideradas no projeto.

A situação levou à adoção de medidas emergenciais, incluindo restrições operacionais, interdição do tráfego e planejamento de intervenções para a recuperação da estrutura.

Os documentos também revelam outro ponto que chama a atenção: a dificuldade para localizar registros detalhados da construção da ponte. Entre os materiais considerados importantes para compreender o comportamento estrutural estão diários de obra, controles tecnológicos, informações sobre as etapas construtivas, procedimentos adotados no fechamento do tabuleiro e registros dos ajustes realizados nos estais — cabos estruturais de alta resistência que ligam o tabuleiro aos mastros da ponte e ajudam a sustentar e distribuir as cargas da estrutura e do tráfego.

A ausência desses dados limita, segundo as informações apresentadas pela concessionária, a reprodução integral das condições existentes na estrutura e dificulta uma avaliação mais conclusiva sobre as causas dos problemas.

Uma reunião realizada por videoconferência no dia 6 de julho reuniu representantes da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), da concessionária e da empresa responsável pela verificação independente. O encontro teve como objetivo discutir uma nova ocorrência relacionada à abertura entre aduelas da Ponte Anita Garibaldi.

Durante a reunião, a concessionária apresentou o histórico das investigações iniciadas após um problema identificado em outubro de 2022, no vão central próximo ao mastro 35. Na ocasião, foram realizados reforços estruturais, prova de carga e outros estudos destinados a avaliar a segurança da ponte e definir condições para a continuidade da operação.

A apresentação técnica anexada aos documentos mostra que o primeiro sinal do problema foi identificado em 5 de outubro de 2022. Naquele momento, foi observada uma abertura ao longo da seção inferior da laje, entre as aduelas 6 e 7 do vão central ligado ao mastro 35. O material registra que o dano não havia sido observado em uma visita realizada cerca de dois meses antes.

As imagens técnicas também mostram que a abertura se estendia pelas paredes verticais da estrutura, com registro de cisalhamento nos pontos de contato entre as aduelas.

Já na ocorrência mais recente, foi identificada uma abertura de aproximadamente 2,5 milímetros entre aduelas no vão 36 lateral. Segundo o registro da reunião, equipes foram mobilizadas para realizar novas prospecções e avaliar os sistemas de protensão e ancoragem da ponte.

Enquanto as investigações eram realizadas, a concessionária decidiu restringir preventivamente a circulação de cargas especiais com peso superior a 10 toneladas por eixo. A medida buscava reduzir os esforços sobre a estrutura durante o período de avaliação técnica.

Rompimento de cabos

A situação se tornou mais grave após a conclusão dos primeiros ensaios realizados na estrutura. Em correspondência encaminhada à ANTT, a concessionária informou que os resultados apontaram o rompimento de cabos de protensão localizados na junta entre as aduelas A6 e A7, na região do vão central, próximo ao apoio de número 35.

O documento afirma que a análise estrutural indicou que a capacidade resistente da seção, diante das condições observadas, não atendia integralmente às margens de segurança exigidas pelas normas para os esforços provocados pelas cargas móveis previstas no projeto.

Diante do resultado, a concessionária decidiu interditar totalmente o tráfego na Ponte Anita Garibaldi a partir das 19h do dia 9 de julho, mantendo o bloqueio até a execução das intervenções necessárias para a recuperação estrutural.

Durante a interdição, o trânsito foi direcionado para a Ponte das Cabeçudas, também conhecida como antiga ponte de Laguna. A previsão apresentada era de que as intervenções emergenciais fossem executadas em aproximadamente dez dias, permitindo posteriormente uma liberação parcial do tráfego.

Ao mesmo tempo, as investigações e o monitoramento da estrutura deveriam continuar para permitir o dimensionamento de uma solução definitiva.

Estrutura única

Outro ponto destacado durante a reunião é que o tabuleiro da Ponte Anita Garibaldi constitui uma estrutura única para os dois sentidos da BR-101.

Isso significa que uma alteração no comportamento estrutural pode produzir efeitos sobre toda a ponte, mesmo quando o problema é identificado em uma região específica. Conforme a ata, decisões anteriores de fechamento de apenas um dos sentidos estavam relacionadas principalmente às condições operacionais e às possibilidades de desvio do trânsito.

A ANTT manifestou preocupação com a segurança dos usuários e solicitou informações técnicas complementares. A agência cobrou os resultados preliminares das investigações e uma manifestação sobre as condições de segurança para a circulação dos veículos que não estavam incluídos na restrição aplicada às cargas especiais.

Falta de documentos

Além dos danos identificados, os documentos revelam dificuldades para recuperar informações técnicas da fase de construção da Ponte Anita Garibaldi.

Segundo a concessionária, apesar da existência de projetos e outros materiais, ainda não foram encontrados registros suficientes sobre determinados procedimentos adotados durante o fechamento do tabuleiro e sobre os ajustes das forças aplicadas nos estais. Essas informações são consideradas relevantes para compreender o comportamento global da estrutura.

A concessionária informou que busca esses documentos desde 2022 e que foram encontradas divergências entre algumas informações presentes nos projetos e nos registros disponíveis. A recuperação do histórico executivo é considerada necessária para uma análise mais conclusiva sobre as causas das ocorrências verificadas na ponte.

A ANTT se comprometeu a buscar apoio do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) para localizar os diários de obra, registros de controle tecnológico e demais documentos relacionados à execução da Ponte Anita Garibaldi.

Entre os encaminhamentos definidos estão a atualização das investigações, a apresentação de manifestação técnica sobre as condições de segurança do tráfego e a busca pelos registros históricos da construção. As informações deverão ser compartilhadas entre os órgãos e empresas envolvidos para orientar novas análises e definir as providências técnicas necessárias.