
Como defendi em artigos anteriores e até mesmo antes da possibilidade concreta da equiparação, a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas seria não apenas necessária, mas profundamente benéfica para a segurança pública brasileira e internacional. Enquanto críticos argumentavam que essa classificação traria apenas riscos à soberania nacional e prejudicaria a cooperação com os Estados Unidos, eu defendia que, ao contrário, ela seria a ferramenta jurídica e operacional capaz de desmantelar a estrutura financeira e logística dessas corporações do crime. Agora, com a decisão do Departamento de Estado dos Estados Unidos em designar o PCC e o CV como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTOs) e Terroristas Globais Especialmente Designados (SDGTs), entrando em vigor em 5 de junho de 2026, a história valida minha análise. Os Estados Unidos reconhecem o que eu já havia identificado: estamos lidando com entidades que transcendem o conceito tradicional de crime organizado e operam como corporações do terror que ameaçam a soberania de nações inteiras. A equiparação não é um risco, é a solução.
O FBI Continua Investigando: Prova Prática de que funciona
Um dos argumentos mais comuns dos críticos era que a classificação como terrorista prejudicaria a cooperação entre Brasil e EUA, que o FBI deixaria de investigar e que as autoridades brasileiras perderiam acesso à inteligência americana. A realidade provou o contrário de forma espetacular e documentada.
O FBI conduziu operações que desmantelaram uma rede sofisticada de lavagem de dinheiro para o PCC operando nos Estados Unidos. A investigação resultou na prisão de 6 homens, sendo 5 cidadãos brasileiros e 1 cidadão americano, todos moradores da região de Orlando, Flórida. Esses indivíduos integravam uma estrutura complexa de facilitadores, transportadores e mensageiros responsáveis por recolher grandes quantidades de dinheiro em espécie proveniente da venda de drogas em várias cidades americanas: Atlanta, Charlotte, Chicago, Cleveland, Minneapolis, Rochester e Tampa.
O esquema funcionava com precisão empresarial. Os valores eram depositados em instituições financeiras americanas para ocultar a origem ilícita e, posteriormente, o lucro era devolvido aos fornecedores de entorpecentes que operavam a partir do Brasil. A organização da logística era feita através de grupos de WhatsApp, demonstrando a sofisticação operacional dessas organizações. O total lavado nessa rede chegou a US$ 30 milhões.
Aqui está o ponto crucial que refuta completamente os críticos: as confissões de culpa dos réus ocorreram após a entrada em vigor da classificação como terrorista. Isso significa que o FBI não apenas continuou investigando com o mesmo rigor, como aplicou punições muito mais severas. Os 6 indivíduos presos enfrentam penas de até 20 anos de prisão, muito superior ao que receberiam sob a classificação anterior de mero crime organizado. Após cumprirem a pena, os réus estrangeiros (brasileiros) estarão sujeitos às leis migratórias americanas e enfrentarão remoção ou expulsão obrigatória dos Estados Unidos.
Mas há mais. Após a equiparação entrar em vigor, em junho de 2026, o FBI e a polícia migratória dos EUA (ICE) intensificaram as operações. Em 15 de junho, apenas 10 dias após a classificação como terrorista, Felipe Linares de Oliveira Dell Aquilla, conhecido como “Don”, ex-líder criminoso ligado ao PCC e CV, foi preso na Carolina do Norte após uma perseguição. Ele era foragido da Justiça brasileira, procurado pela Interpol por associação criminosa e extorsão. No carro, os agentes encontraram uma arma de fogo, dinheiro em espécie e telefones celulares.
Em 1º de julho de 2026, o Tesouro americano anunciou sanções contra 2 brasileiros (Victor Henrique de Oliveira Shimada e Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira), 3 empresas sediadas em São Paulo e 1 empresa em Portugal, acusados de movimentar mais de US$ 30 milhões em esquemas de lavagem de dinheiro para o PCC. Shimada atuava como principal elo entre operadores do PCC na Flórida e traficantes internacionais, lavando recursos através de transferências em criptomoedas. As empresas sancionadas (Victory Trading, Pixwave Soluções de Pagamentos e Wave Construções Inteligentes) eram utilizadas para dar aparência de legalidade às movimentações financeiras.
Os críticos estavam completamente errados. O FBI não parou de investigar. As polícias locais continuaram colaborando. A inteligência foi compartilhada normalmente. A classificação como terrorista não centralizou tudo no Departamento de Estado ou na CIA, mas potencializou o trabalho das agências operacionais. As operações posteriores à equiparação demonstram que o combate se intensificou, não diminuiu.
A Estrutura Global Confirmada
A investigação do FBI revelou dados importantes sobre a estrutura operacional do PCC. O grupo é descrito como uma “organização intercontinental” com expansão que vai muito além do que os críticos imaginavam. O PCC é hoje o maior distribuidor de cocaína para a Europa, operando em Portugal e em países da África com sofisticação empresarial. O Comando Vermelho, por sua vez, está fortemente presente na África, controlando rotas estratégicas de tráfico. Nos Estados Unidos, ambas as facções têm atividades identificadas em 12 estados diferentes.
No Brasil, o domínio é ainda mais abrangente. Enquanto o PCC domina São Paulo como sua base principal, sua presença se estende por todos os estados brasileiros, operando em múltiplas frentes de tráfico, lavagem de dinheiro e financiamento de operações criminosas. O Comando Vermelho domina o Rio de Janeiro e expande sua influência pela Amazônia e regiões fronteiriças.
O modus operandi é sofisticado. A rede desmantelada contava com uma divisão clara de trabalho: facilitadores identificavam oportunidades, transportadores movimentavam o dinheiro, mensageiros coordenavam operações. Essa estrutura permitiu que o PCC operasse simultaneamente em sete cidades americanas diferentes, coletando dinheiro do tráfico de drogas de forma coordenada e sistemática. É a estrutura de uma multinacional do crime, não de uma simples facção de presídio.
A Ligação com Hezbollah: Prova de Que São Terroristas
Um argumento que reforça ainda mais a tese de que a equiparação é correta é a comprovada ligação do PCC e do Comando Vermelho com o Hezbollah, organização terrorista internacional designada pelos Estados Unidos desde 1997. Essa não é uma aliança casual ou pontual. É uma parceria estruturada que remonta a 2006 e opera principalmente na Tríplice Fronteira entre Brasil, Argentina e Paraguai. Como denunciou em agosto de 2026 o politólogo brasileiro André Lajst, presidente da filial brasileira da StandWithUs, organização internacional dedicada à luta contra o antissemitismo, o Hezbollah estreitou vínculos com o PCC especificamente para fortalecer suas estruturas de narcotráfico, tráfico de armas e lavagem de dinheiro na região.
Segundo investigações da Polícia Federal, o PCC prometia dar proteção a presos de uma quadrilha libanesa nas penitenciárias brasileiras. Em contrapartida, o PCC ganhava vantagem no tráfico de diversos mercados ilícitos com a facilitação do Hezbollah, que opera com lavagem de capitais, contrabando de cigarros e armas, especialmente na Tríplice Fronteira. Antes do PCC, foi o Comando Vermelho quem inicialmente colocou o Hezbollah no esquema criminoso brasileiro, com o narcotraficante Luiz Fernando da Costa, conhecido como Fernandinho Beira-Mar, estreitando esses negócios. Essa aliança permitiu que ambas as facções expandissem suas operações internacionais com o apoio de uma organização terrorista com décadas de experiência em financiamento de atividades ilícitas globais.
As atividades conjuntas são sofisticadas. O Hezbollah gera receita na Tríplice Fronteira através de lavagem de dinheiro, tráfico de drogas, falsificação de dólares americanos, comércio ilegal de diamantes e contrabando de grandes quantidades de dinheiro em espécie. Financiadores identificados como Assad Ahmad Barakat, qualificado como “terrorista global” pelo Tesouro Americano, lavaram cerca de US$ 10 milhões para o Hezbollah em cassinos da região de fronteira.
O governo dos Estados Unidos oferece recompensa de até US$ 10 milhões por informações sobre os mecanismos financeiros do Hezbollah na Tríplice Fronteira. A Polícia Federal já prendeu membros do Hezbollah no Brasil em operações como a Trapiche, em novembro de 2023, e em agosto de 2024. Esses ataques não são ficção: o Hezbollah organizou a partir da Tríplice Fronteira o ataque à Embaixada de Israel em Buenos Aires em 1992 e o ataque à AMIA em 1994, que resultaram em mais de cem mortos.
Essa ligação com uma organização terrorista internacional designada pelos EUA desde 1997 não deixa dúvida: o PCC e o CV não são mero crime organizado. São estruturas que operam em aliança com terroristas globais, financiando operações de grupos que já mataram centenas de pessoas em ataques comprovados. A equiparação é não apenas correta, mas necessária.
Conclusão: A Equiparação Funciona
Os dados falam por si. O FBI continua investigando. As operações se intensificaram após junho de 2026. As punições são mais severas. O rastreamento financeiro é mais eficaz. As sanções atingem não apenas criminosos, mas toda a infraestrutura de lavagem de dinheiro. E as autoridades brasileiras continuam recebendo inteligência de qualidade.
A equiparação não prejudicou a cooperação, potencializou-a. Não centralizou as investigações em agências de inteligência, manteve o FBI e as polícias locais no comando. Não criou barreiras, criou ferramentas mais eficazes. Essa é a validação prática de uma análise que eu vinha defendendo: a equiparação é benéfica, não prejudicial. É exatamente a ferramenta que faltava para combater essas corporações do terror de forma eficaz. Os Estados Unidos, finalmente, reconheceram isso. E os resultados já estão aparecendo.
Dr. Márcio Bueno – Advogado, Gestor e Analista de Políticas em Segurança Pública, Gestor de Inteligência em Segurança Pública, Palestrante em Segurança Pública e Crime Organizado, Professor de Pós Graduação em Segurança Pública, Presidente do CONSEM – Conselho de Segurança do Município de Chapecó/SC.
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