Antes de ser comprada pela RBS, o jornal A Notícia quase se juntou ao Grupo Petrelli.


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Luiz Veríssimo

Foto: Nilson Bastian/Sinduscon

O ano de 2006 foi um dos mais importantes da história da imprensa catarinense. Em março, a Família Petrelli lançou seu primeiro jornal diário em Florianópolis (Notícias do Dia) e em novembro o segundo com o mesmo nome em Joinville. Em setembro, o jornal A Notícia foi comprado pelo Grupo RBS. Mas o ano poderia ter sido ainda mais importante se tivesse sido concretizada uma joint-venture entre os acionistas de A Notícia e a Família Petrelli para formar um grupo em condições de rivalizar com a RBS. Durante longa entrevista ao colunista na TVBE/Joinville na última sexta-feira, o ex-presidente de A Notícia revelou os motivos da venda e pela primeira vez o projeto que estava em andamento com a família Petrelli.

Foto: Reprodução TVBE/Joinville. Moacir Thomazi

Há 20 anos

A RBS já contava com uma emissora de TV em Joinville e não conseguia expandir o seu Diário Catarinense na região. O DC chegou até a ser o principal patrocinador do JEC em 2000, ano em que foi campeão catarinense, mas nenhuma ação de marketing conseguiu ameaçar a liderança do concorrente no Norte. “Eles (a RBS) já queriam comprar o jornal há tempos”, confirmou Thomazi. A compra aconteceu em 2006 depois que a RBS teria descoberto a provável união entre A notícia e seu maior competidor em Santa Catarina, a Família Petrelli.

Um gigante na comunicação

O projeto já estava quase concluído. A TV em Joinville e os jornais que seriam criados em Joinville e Blumenau ficariam sob administração dos joinvilenses, o mesmo acontecendo com uma futura emissora de rádio na cidade. Certamente preocupada com o crescimento do seu grande rival na comunicação em Santa Catarina, a RBS pediu a Thomazi que, antes de concluir a joint-venture, ouvisse a sua proposta envolvendo o jornal que ele presidia desde 1978.

Motivos da venda

Antes de concordar em ouvir a proposta da RBS, Thomazi procurou Marcelo Petrelli e o informou do diálogo que teria com Nelson Sirotsky em Florianópolis. Liberado pelo seu “ex-futuro sócio”, o presidente de A Notícia fez uma avaliação sobre quanto valeria a pena vender o jornal. Em suas palavras, o valor seria x, mas ele pediu x mais 100%. Nas negociações, a RBS chegou a x mais 50%, o que não foi aceito. Alguns dias depois, Thomazi foi comunicado que a proposta do grupo gaúcho seria aceita. Além do valor irrecusável (até hoje não revelado), Thomazi conversou com a família. O fato de nenhum de seus dois filhos ter se interessado em sucedê-lo no jornal foi decisivo na negociação. O “take-over” envolvendo A Notícia aconteceu setembro de 2006. 10 anos depois, em março de 2016, a RBS vendeu todas as suas operações em Santa Catarina, incluindo o jornal A Notícia.

TV A Notícia

No final dos anos 90, o Ministério das Comunicações liberou um canal de televisão para Joinville. Três grupos apresentaram propostas, entre eles o jornal A Notícia e o Grupo RIC de Florianópolis. O projeto de A Notícia foi aprovado, restando apenas a etapa das propostas financeiras. Moacir Thomazi confirmou: ele perdeu a licitação por uma diferença de R$ 10 mil reais para o Grupo Petrelli. Aliás, quando construiu a nova sede, em 1980, o projeto previa uma ala para abrigar uma emissora de TV e outra para uma rádio, fato que nunca aconteceu. Contudo, é possível imaginar o que seria o Jornal A Notícia atuando em sinergia com uma emissora de TV própria na região no início de 2000.

O início e o obstáculo da língua

A Notícia foi fundada em fevereiro de 1923 por um afrodescendente em uma cidade em que 70% da população se comunicava somente pela língua alemã. No início era um semanário, mas apesar dos obstáculos, logo passou a ser rodado três vezes por semana. Nos anos 50, o jornal foi comprado por três empresários (Baltazar Buschle, Helmuth Fallgater e Wittich Freitag). O projeto político era cada um deles ser prefeito de Joinville.

Baltazar Buschle
Helmuth Fallgater

Empresários e prefeitos

Certamente o jornal A Notícia contribuiu para que o empresário Baltazar Buschle se elegesse prefeito (1958/1961) e Helmuth Falgatter a sucedê-lo pelo PSD (1961/1966). Foram dois prefeitos com elogiáveis administrações. Buschle colocou as finanças da prefeitura em ordem e Fallgater, por exemplo, foi decisivo na preservação do Morro do Boa Vista, uma extensa área verde no meio da cidade.

Foto: Wittich Freitag

Não teria tempo de ser prefeito

O terceiro sócio preferiu declinar do compromisso por falta de tempo: estava muito ocupado na formação de uma empresa de compressores (Embraco) em parceria com a dinamarquesa Danfuss. Contudo, a profecia acabou aconteceu mais tarde (já sem a Consul e Embraco), quando Freitag sucedeu a Luiz Henrique (MDB) ao vencer a eleição de 1982. Ironicamente, sem o “apoio” do jornal que era sócio.