ARTIGO | A Sedução da Besta: Do Feudo dos Algoritmos ao Apocalipse Tupiniquim


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Redação Santa Catarina em Pauta

Por Carlos Castro – Jornalista

Há no ar do Brasil uma perversão que exala o cheiro nauseante do pecado não confessado. A turba, lívida e babando um ódio devoto, ajoelha-se diante de um altar de fumaça. O ressentimento bolsonarista não é mera contenda política; é um drama de alcova metafísico, uma patologia do desejo escatológico que prepara a nossa irremediável e grotesca derrocada.

Para decifrar o monstro que se gesta nas sombras do planalto, é preciso descer aos subsolos da hermenêutica ocultista. O finado Olavo de Carvalho — figura digna de um tratado sobre a patologia do autoengano — agia como o arauto tupiniquim de uma heresis anacrônica. De mãos dadas com a arquitetura neofascista de Steve Bannon e a geopolítica neoeurasiana do russo Aleksandr Dugin, ele ressuscitou os espectros de Julius Evola e René Guénon, teóricos do Tradicionalismo e inimigos jurados da Modernidade. 

Em artigo escrito anteriormente, tracei a genealogia dessa demência ideológica que ameaça corroer o tecido republicano. Minha exegese apoiava-se nos postulados de Benjamin Teitelbaum (Guerra pela Eternidade) e Mark Sedgwick (Contra o Mundo Moderno), obras que funcionam como o Malleus Maleficarum dos nossos dias.

Quando me debrucei sobre essa literatura da morbidez, a mecânica da nossa loucura coletiva tornou-se transparente. Digo isso por dever de ofício e de espírito. Fui moldado na têmpera bíblica das Assembleias de Deus até os meus vinte e um anos e, nas últimas três décadas e meia, mergulhei no conhecimento kardecista e espiritualista. Conheço, portanto, a anatomia das trevas e a linguagem dos demônios. Como cronista deste teatro de carne e perdição, cumpre-me traduzir esse embuste ao leitor, a quem cabe a sentença final diante do abismo.

A mecânica do desastre, contudo, possui rigor metodológico. Steven Levitsky e Daniel Ziblatt já nos advertiram em Como as Democracias Morrem: o tiranete moderno não usa tanques, mas a própria Constituição como mortalha. Na outra ponta do espectro tecno-econômico, Yanis Varoufakis diagnostica o Tecnofeudalismo: o capitalismo expirou, dando lugar ao domínio tirânico dos algoritmos e das Big Techs. E foi o meu amigo Elton Zattar Guerra, em sua recém-lançada obra A Arquitetura da Mentira, quem finalmente costurou os retalhos desse monstrum ideológico que embriagou o povo.

O Brasil tornou-se uma cena de Grand Guignol onde a democracia se digladia com a barbárie. O lulopetismo não é perfeito. Longe disso. É arrogante, autofágico e recheado de erros humanos. Contudo, traz em sua têmpera histórica, a defesa do social, a premissa básica de colocar o pobre no orçamento para que a máquina da vida continue a girar. Com a chapa Lula-Alckmin, sabemos qual é o drama e onde fica o palco.

Por outro lado, o herdeiro Flávio Bolsonaro pretende construir uma dinastia sob a vingança canalha, o rancor dos impotentes, o chicote da classe média frustrada. E a imprensa tradicional — ah, a grande mídia, essa senhora de virtudes mentirosas! —, no seu fetiche cego pelo rentismo, alimentou a fera para emparedar o governo. Criou um Frankenstein de gravata e agora chora, pálida de terror, ao ver a criatura arrombar a porta do quarto. É a valsa à beira do abismo, como bem profetizou Ciro Gomes.

A cena me lembra o aviso tétrico de um Procurador da República no retorno da greve operária da Cipla: “Castro, cuidado com o que queres, pois poderás ter”. Essa frase deveria ser cinzelada na testa dos canalhas da imprensa e da multidão de miseráveis de direita. Atacaram a Suprema Corte até estraçalharem os freios institucionais, perseguindo o magistrado que segurou a democracia pela unha. Enquanto isso, a uberização do motorista de aplicativo e os MEI pejotizados, bêbados com a fantasia de que são “empresários de si mesmos”, caminham sorridentes para o matadouro. O choro futuro será terrível. É a tragédia grega encenada por idiotas da aldeia.

Em seus delírios públicos, o filho do mito promete estraçalhar a Carta Magna. Com o aplauso da mídia covarde, aplicará aqui o método Trump: censura, revanche, processos e calabouço para os jornalistas. O sistema de freios e contrapesos será jogado às calendas gregas, convertendo o país numa Venezuela neocolonial, ajoelhada e de calças curtas diante do imperador yankee.

No cardápio da desgraça: a liquidação do Banco do Brasil e da Caixa Econômica, a entrega do SUS à rapina das Organizações Sociais, o saque da Petrobras e das nossas terras raras. A CLT será sepultada sem missa de sétimo dia. Há senadores bradando por jornadas medievais de dezesseis horas diárias, invocando falsamente o modelo estadunidense para escravizar o trabalhador de entrega, sendo que desde 1938, a jornada de lá é de 40 horas semanais.

Aposentadoria? Esqueçam. Daniela Marques, a economista saída da Caixa de Pandora, já prepara o garrote vil para impor o trabalho compulsório até os setenta anos. A classe média, em sua soberba provinciana, acabará banqueteando-se com filés de burro, enquanto os famintos disputarão a fila do osso, da humilhação e do suicídio — a perfeita “argentinização” da miséria. Mas a turba com a mente capturada consolar-se-á gritando: “Pelo menos derrotamos o PT!”. No ápice desse delírio surrealista, teremos Pablo Marçal vestindo a toga do STF mutilado, enquanto o patriarca subirá a rampa nos braços dos anistiados. É a apoteose da nossa estupidez.

A Disrupção Fascista e a Dança dos Demônios

A genealogia do mal exige rigor. Julius Evola, no tratado “Cavalgar o Tigre” de 1961, prescreveu a doutrina do apoliteia: os fiéis da Ordem deveriam refugiar-se na cultura das trevas, imunes à contaminação da modernidade liberal, aguardando o momento em que a fera cansasse. Em 2015, o neofascista sueco Daniel Friberg deu a ordem de assalto: era hora de “estrangular o tigre” exausto. O veneno propagou-se em progressão geométrica, vitaminado pelos algoritmos que transformaram o debate público num hospício a céu aberto.

Do ponto de vista teológico-político, assistimos ao triunfo da Igreja de Laodiceia descrita no Apocalipse: uma estrutura morna, vomitada por Deus, convertida ao culto vil de Mamom. O neopentecostalismo foi sequestrado pelo mercado e transformou-se numa usina de perseguição que saliva pelo retorno da Santa Inquisição.

Vivemos os tempos escatológicos. Como está escrito nas Escrituras, até os escolhidos seriam seduzidos por falsos profetas, messias de barro e bezerros de ouro. O Reino de Deus não é deste mundo, decerto, mas este mundo é a arena onde a nossa alma é testada. E, neste momento, os demônios encarnados — o falso messias das praias tropicais e o seu mestre do Hemisfério Norte — trabalham metodicamente para nos arrastar à carnificina de uma guerra civil, declarada pelo profeta do inferno há 27 anos. A comédia humana tupiniquim caminha, a passos largos e sob aplausos de idiotas, para a sua noite mais escura.