Eleições 2026: em plena era da tecnologia, por que o eleitor ainda enfrenta filas, papel e biometria que não funciona?


Foto de Thaís Shihádeh

Thaís Shihádeh

O Brasil costuma ser apresentado como referência mundial quando o assunto é votação eletrônica. A urna eletrônica é, sem dúvida, uma das principais marcas do sistema eleitoral brasileiro. Mas uma pergunta precisa ser feita: se conseguimos modernizar a votação, por que ainda convivemos com procedimentos que parecem pertencer a outra época?

As filas enfrentadas pelos eleitores nas eleições de 2026 reacendem uma discussão que vai muito além da espera de alguns minutos. Em determinados locais, o problema envolve a identificação do eleitor, a leitura da biometria, a conferência de documentos e procedimentos que continuam dependendo de registros e anotações em papel.

E aí surge a pergunta inevitável: por que, em um país que possui tecnologia suficiente para realizar uma eleição eletrônica, ainda existem etapas do processo eleitoral tão dependentes de papel e de procedimentos manuais?

O eleitor chega à seção esperando um procedimento simples: identificar-se, ser reconhecido pelo sistema, votar e sair. Na prática, quando a biometria não é reconhecida, quando o equipamento apresenta dificuldades ou quando há necessidade de recorrer a procedimentos alternativos, a fila cresce — e a experiência do cidadão se transforma em espera.

Não se trata de questionar a segurança da urna eletrônica. São discussões diferentes.

Uma coisa é a segurança e a confiabilidade do voto. Outra é a eficiência da operação eleitoral.

É perfeitamente possível defender a segurança do sistema eletrônico e, ao mesmo tempo, cobrar modernização de todas as etapas que envolvem o eleitor.

O mesmo vale para os registros utilizados nas seções eleitorais. Em uma sociedade em que bancos, hospitais, empresas e órgãos públicos caminham cada vez mais para processos digitais, é legítimo perguntar por que determinadas rotinas eleitorais ainda dependem de cadernos, papéis e conferências manuais.

A tecnologia deveria existir justamente para reduzir burocracia, diminuir o tempo de atendimento e evitar que um problema em uma etapa provoque uma fila inteira.

E há outra questão: se a biometria é utilizada como instrumento de identificação do eleitor, o que acontece quando ela não funciona adequadamente?

O cidadão não pode ser responsabilizado por uma falha operacional do equipamento. Quando a leitura biométrica não acontece, é necessário que existam procedimentos seguros, rápidos e previamente estruturados para solucionar a situação sem transformar a seção eleitoral em um gargalo.

É claro que eleições são operações gigantescas. São milhões de eleitores, milhares de locais de votação e uma estrutura que precisa funcionar simultaneamente em todo o país. Problemas pontuais podem acontecer.

Mas exatamente por isso a pergunta é pertinente: o que está sendo feito para que esses problemas deixem de ser recorrentes?

A modernização eleitoral não deveria terminar na urna.

Ela precisa alcançar a experiência completa do eleitor: identificação, atendimento, acessibilidade, organização das filas, comunicação, infraestrutura, transmissão de informações e todos os procedimentos que acontecem antes e depois do momento em que o cidadão aperta “confirma”.

O eleitor brasileiro já está acostumado com a tecnologia. Faz pagamentos pelo celular, utiliza reconhecimento facial, acessa serviços públicos digitalmente, assina documentos eletronicamente e resolve inúmeras questões sem sequer precisar sair de casa.

Por isso, é natural que espere também um processo eleitoral cada vez mais eficiente, integrado e moderno.

E cobrar isso não é atacar a democracia.

Ao contrário.

Uma democracia forte também precisa ser capaz de ouvir as reclamações de quem está na fila.

A discussão que precisa ser feita não é apenas sobre quem venceu ou perdeu uma eleição. É sobre como podemos tornar o processo eleitoral mais rápido, acessível, eficiente e compatível com a tecnologia disponível no século XXI.

Se existe tecnologia para melhorar a identificação do eleitor, reduzir filas e diminuir procedimentos manuais, por que não utilizá-la de maneira mais ampla?

Talvez a pergunta mais importante depois das Eleições 2026 não seja apenas “quem ganhou?”.

Talvez seja:

“O que ainda precisamos modernizar para que o eleitor consiga exercer seu direito de voto com menos burocracia, menos espera e mais eficiência?”

Porque votar é um direito.

Esperar horas por uma estrutura que poderia funcionar melhor não deveria ser tratado como parte natural da democracia.