
O primeiro discurso do presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT), após a confirmação de sua vitória para um quarto mandato, dá um sinal de que ele pode ter entendido o recado da sociedade. Se isso vai se transformar em mudança, só saberemos durante o governo. Mas fica a esperança de que Lula e a esquerda tenham aprendido que precisam ouvir mais do que falar.
Lula entrou na disputa com o senador Flávio Bolsonaro (PL) acreditando demais na sua história e nos bons resultados dos primeiros governos. Parecia considerar que isso bastaria para garantir a reeleição. Não percebeu que sua terceira gestão, mesmo com alguns resultados positivos na economia, já não era vista da mesma forma por uma população cansada de esperar respostas para os problemas do dia a dia. Se, em vez de um Flávio, cheio de fragilidades morais por suspeitas difíceis de explicar, fosse um Tarcísio de Freitas (Republicanos), a eleição teria sido outra.
Parte da esquerda se fechou nos jantares de intelectuais e nas conversas entre pessoas que pensam igual. Ficou discutindo o que o povo deveria querer, enquanto deixou de ouvir o que ele estava pedindo. Quem vive em uma comunidade quer trabalhar e voltar para casa em segurança. Quer comprar um gás mais barato, escolher a sua internet e abrir um comércio sem precisar da autorização de criminosos. Quer viver sem o medo de perder a casa ou a própria vida por desobedecer às regras do crime organizado. E isso não se resolve com discussões acadêmicas sobre a origem da violência. Isso requer a mão forte do Estado, o que boa parte da esquerda rejeita.
A esquerda precisa entender que segurança também é uma prioridade para os mais pobres. São eles que convivem com o crime na porta de casa e que, muitas vezes, não têm a quem recorrer. Ouvir essas pessoas e cobrar uma resposta do Estado faz parte da defesa dos direitos humanos. Além disso, há as pessoas com melhor renda, que também têm o direito de clamar por segurança. Não podem estar condenadas a não poder usufruir do fruto de seu trabalho por conta de uma política de segurança e de um Código Penal que mais estimulam a criminalidade do que defendem a população.
Também é preciso respeitar quem deseja ter o próprio negócio. Uma pessoa de baixa renda pode querer abrir um salão de beleza, vender marmitas ou trabalhar como motorista de aplicativo. Pode sonhar em crescer, ganhar melhor e dar mais conforto à família. Se, por um lado, precisamos discutir condições de trabalho e proteção para essas pessoas, por outro, isso não dá a ninguém da esquerda o direito de tratá-las com deboche. Expressões como “CEO de MEI” e “pobre de direita” afastam quem deveria ser ouvido, pois ninguém gosta de receber uma lição de alguém que despreza a sua escolha.
O mesmo acontece com a religião. Muitas pessoas passaram a frequentar igrejas evangélicas, onde encontraram apoio, acolhimento e ajuda em momentos difíceis. Algumas continuam se identificando com a esquerda, mas têm uma visão mais conservadora sobre determinados assuntos. Isso precisa ser respeitado.
Em suma, os intelectuais e dirigentes da esquerda precisam sair dos jantares e conversar com quem pega ônibus cedo, enfrenta uma fila por atendimento médico e faz contas para chegar ao fim do mês. Precisam ouvir também o pequeno comerciante, o motorista de aplicativo e a mulher que vende comida para sustentar os filhos. Essas pessoas sabem o que está faltando em suas vidas. Têm o direito de dizer o que querem e de cobrar respostas, mesmo quando suas opiniões desagradam a quem está no poder.
E a direita

A direita precisa fazer uma profunda reflexão sobre o seu futuro. Ou amplia os seus horizontes e abandona a idolatria pela família Bolsonaro e por influenciadores da internet, ou corre o risco de continuar perdendo eleições que poderia vencer. Há uma parcela da população que deseja um caminho diferente daquele proposto por Lula (PT), mas rejeita entregar o governo novamente ao bolsonarismo.
Ser de direita não é sinônimo de ser bolsonarista. Reduzir todo um campo político à vontade de uma família é limitar ideias e impedir o surgimento de lideranças capazes de conversar com mais brasileiros. Nenhum sobrenome pode ser maior do que um projeto de país.
Fernando Henrique Cardoso, embora tenha suas origens na centro-esquerda e, com o tempo, tenha passado a ter uma visão mais liberal, mostrou como resultados concretos podem construir uma liderança. Como ministro da Fazenda de Itamar Franco, comandou a equipe responsável pelo Plano Real, que controlou a hiperinflação e mudou a vida dos brasileiros. Depois, derrotou Lula em duas eleições presidenciais. Havia uma entrega, uma equipe e uma proposta que o eleitor podia avaliar.
O bolsonarismo venceu em 2018, em meio à profunda crise do PT e com Lula preso e fora da disputa. Depois, Jair Bolsonaro perdeu para o petista em 2022. Agora, foi a vez de Flávio. A insistência em manter a candidatura presidencial dentro da mesma família precisa ser discutida por quem pretende construir uma alternativa de poder. É cômodo atribuir toda derrota aos outros. Mais difícil é reconhecer que o próprio grupo pode estar afastando os eleitores de que precisa para vencer. Uma campanha pode empolgar os mais fiéis e, ao mesmo tempo, assustar quem está fora dessa bolha.
Na minha avaliação, parte do eleitorado olha para figuras como Pablo Marçal, Pavanatto e outros personagens das redes sociais e não encontra a segurança que espera de um governo. Provocações e ataques geram compartilhamentos, mas não demonstram preparo para resolver os problemas de quem precisa de emprego, segurança e atendimento de saúde. Além disso, não se constrói uma sociedade dividindo as pessoas em castas, condenando minorias a serem “aceitas”, como se fosse um favor. O país precisa ser para todos, independentemente de fé, raça, condição social ou orientação sexual.
Isso ajuda a entender por que alguém insatisfeito com Lula pode acabar votando nele. Não significa necessariamente aprovação à sua gestão, mas a avaliação de que a alternativa traz ainda mais dúvidas. A direita precisa compreender esse eleitor, em vez de tratá-lo como inimigo ou traidor. Há governadores, parlamentares e gestores nesse campo com experiência e resultados para apresentar. Eles precisam ter espaço para crescer sem depender da autorização dos Bolsonaro e sem que qualquer sinal de independência seja tratado como deslealdade.
Zanin

Mais uma vez, o Judiciário gera tensão no país. Primeiro, a inércia do presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Kássio Nunes Marques, que sabia do problema relacionado ao transporte público e, mesmo alertado, nada fez. Aí vem o ministro do STF, Cristiano Zanin, que deixa para tomar uma decisão em cima do horário de encerramento da votação, causando uma grande confusão sem necessidade. Tanto que não havia mais movimento nos locais de votação. Na prática, essa situação não mexeu com o resultado da eleição. Mas serviu como um pretexto para tensionar um país tomado pelo ódio. Vale lembrar que as duas campanhas pediram a prorrogação do prazo. Mesmo assim, foi um erro que só ajudou a gerar mais instabilidade.
Kássio Nunes

O presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Kássio Nunes Marques, ligou para Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT) para comunicar-lhes o resultado e parabenizou o petista pela vitória. Ou seja, para Nunes Marques, a decisão do ministro do STF, Cristiano Zanin, mesmo que equivocada, não provocou mudança no resultado do pleito.
Responsabilidade

Um político precisa ter responsabilidade e honestidade intelectual. Enquanto lideranças como o vice-governador eleito, Adriano Silva (Novo), e o deputado estadual eleito, Leandro Sorgatto (PL), tiveram serenidade e respeito pela democracia em suas manifestações, lamentando o resultado da eleição, mas sem qualquer questionamento à lisura do pleito, outros, de forma oportunista, foram às redes sociais para ganhar likes e validação da população, levantando a possibilidade de fraude. O eleitor precisa cobrar mais responsabilidade de uma parcela da classe política, pois esse tipo de atitude não é para defender os seus interesses. É um oportunismo para ter a sua validação e ganhar os seus likes e, principalmente, votos quando houver eleições.
Fortalecido

Mesmo sem a eleição de Flávio Bolsonaro (PL), o governador Jorginho Mello (PL) sai fortalecido. O líder dos liberais catarinenses conseguiu a maior votação para o Zero Um entre os três estados do Sul. Flávio chegou a 69,42% dos votos aqui em Santa Catarina, contra 62,58% no Paraná e 57,84% no Rio Grande do Sul. Além disso, o eleitor catarinense deu o terceiro maior percentual de votos para Flávio, ficando atrás apenas de Roraima, com 72,46%, e Rondônia, com 69,61%. Detalhe: enquanto Santa Catarina deu mais de 3 milhões de votos para o liberal, Roraima deu 219.675, e Rondônia, 674.382.
Líder no PL
O governador Jorginho Mello (PL) sai da eleição com o potencial de se colocar como uma das principais lideranças do Partido Liberal no país. Durante a eleição, passou a exercer o papel de líder dos governadores eleitos da região Sul, Luciano Zucco (PL), no Rio Grande do Sul, e Sérgio Moro (PL), no Paraná. Tanto que ambos querem enviar os seus futuros secretários para uma imersão no governo Jorginho. Em suma, mesmo com a derrota de Flávio, Jorginho não tem muito a reclamar, dado o papel que passará a exercer dentro do PL.
Esquerda cresce

Quem também cresceu foi a esquerda aqui no estado. O trabalho das lideranças, sobretudo mais jovens, como o deputado estadual reeleito Marcos Abreu, o Marquito (PSOL), a deputada em exercício Carolline Sardá (PSOL) e a deputada federal eleita Giovana Mondardo (PCdoB), mostra que há uma esquerda sem medo de ir para as ruas, mesmo em um estado considerado, em sua maioria, de direita. Para esse espectro, a troca entre essas lideranças e os mais experientes poderá criar um campo fértil para a conquista de mais espaço.
Merisio

Quem também se consolida como uma força no estado é Gelson Merisio (PSB). Conseguiu encerrar em segundo lugar na eleição ao Governo do Estado, o que, somado à reeleição do presidente Lula (PT), o coloca, de fato, num projeto visando 2030.
Catarinense no DF

O marqueteiro catarinense Maurício Locks saiu vitorioso na disputa pelo Governo do Distrito Federal ao reeleger Celina Leão (Progressistas). Locks conquistou experiência em grandes campanhas. Chegou a trabalhar com o ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo) e, aqui no estado, atuou ao lado de Marcelo Natalle na campanha do senador Esperidião Amin (Progressistas).






