Cinco feminicídios em uma semana em SC expõem desafios na prevenção da violência contra mulheres


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Redação Santa Catarina em Pauta

Ministério Público de Santa Catarina aponta padrões recorrentes nos casos de feminicídio e destaca a importância da prevenção. Foto: Divulgação/MPS

Santa Catarina registrou cinco feminicídios em uma semana, entre os dias 20 e 28 de outubro, nos municípios de Ipira, Faxinal dos Guedes, Vargem, Cocal do Sul e Indaial. Os crimes envolveram homens que mantinham ou haviam mantido relações afetivas com as vítimas e apresentam características semelhantes às identificadas pelo Mapa do Feminicídio, diagnóstico elaborado pelo Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) e lançado em março de 2026. O estudo busca compreender as circunstâncias desses crimes e identificar fatores que podem ajudar a prevenir novas mortes.

Em Ipira, no dia 20 de outubro, um homem arrombou a casa da ex-companheira, matou a mulher e levou o corpo até um riacho. Dois dias depois, em Faxinal dos Guedes, outro homem matou a companheira e escondeu o corpo em uma sacola de viagem. Em 24 de outubro, em Vargem, uma mulher foi morta pelo ex-companheiro diante dos próprios filhos, deixando cinco crianças órfãs. No dia seguinte, em Cocal do Sul, um homem atirou na cabeça da esposa enquanto ela segurava o neto do casal, um bebê. A mulher chegou a ser socorrida, mas morreu. O suspeito fugiu após o crime. O quinto caso foi registrado em Indaial, em 28 de outubro, quando uma mulher foi encontrada morta na casa do ex-companheiro, que não havia sido localizado até a divulgação das informações pelo MPSC.

Segundo o Ministério Público, embora tenham ocorrido em municípios diferentes e em circunstâncias distintas, os casos apresentam pontos em comum com os padrões identificados no levantamento estadual. Os cinco crimes ocorreram em cidades de pequeno porte, situadas em regiões apontadas pelo estudo como corredores de maior incidência de violência letal contra mulheres. Também envolveram relacionamentos atuais ou anteriores e deixaram consequências para filhos e outros familiares das vítimas.

A coordenadora-geral do Núcleo de Enfrentamento às Violências e Apoio às Vítimas (NEAVIT) do MPSC, promotora de Justiça Chimelly Louise Resenes Marcon, afirma que a repetição dessas características indica a importância de identificar situações de risco antes que a violência resulte em morte. “O Mapa mostra que o feminicídio não acontece de forma aleatória. Existem padrões que se repetem e que nos permitem identificar situações de risco antes que elas cheguem ao extremo da morte”, declarou. Para a promotora, um dos principais desafios é fortalecer a prevenção e a proteção das mulheres, além da responsabilização dos autores depois dos crimes.

Término de relacionamentos aparece entre os principais fatores associados

O Mapa do Feminicídio do MPSC aponta que muitos desses crimes ocorrem no contexto de relações íntimas e, com frequência, durante ou após o término do relacionamento. Nos casos analisados pelo estudo, o fim da relação foi identificado como fator desencadeante da agressão fatal em 45,8% das ocorrências. Outros contextos registrados foram desentendimentos diversos, com 24,4%; ciúmes, com 12,5%; suspeitas de traição, com 4,6%; e disputas patrimoniais, com 1,7%.

De acordo com Chimelly, a decisão de uma mulher de encerrar uma relação pode estar associada ao aumento do risco de violência em determinados contextos. A promotora relaciona esse cenário a comportamentos de controle e posse sobre a parceira ou ex-parceira. “Quando a mulher decide encerrar a relação, o risco de violência pode aumentar significativamente”, observa. O diagnóstico também busca demonstrar como a violência letal pode estar ligada à tentativa de impedir que a mulher exerça sua autonomia e tome decisões sobre a própria vida.

A análise do MPSC destaca que o feminicídio tem características que o diferenciam de outras formas de violência letal. Por isso, o enfrentamento não depende apenas de policiamento ou de punições após os crimes. A prevenção também exige identificar sinais de violência, oferecer atendimento adequado às mulheres em situação de risco e promover mudanças culturais relacionadas à igualdade de direitos e ao respeito à autonomia feminina.

Municípios menores enfrentam desafios na rede de proteção

Outro ponto destacado pelo Mapa do Feminicídio é a vulnerabilidade de mulheres que vivem em municípios com menos de 50 mil habitantes. Conforme o estudo, nessas localidades, o acesso a serviços especializados pode ser mais limitado, com estruturas de atendimento concentradas em cidades-polo regionais. Essa distância pode dificultar respostas rápidas em situações de risco.

O MPSC ressalta que isso não significa necessariamente que municípios menores tenham mais violência, mas que podem enfrentar dificuldades específicas para atender e acompanhar mulheres ameaçadas. Entre as medidas apontadas pela promotora estão a capacitação das equipes locais, a integração dos serviços e a criação de fluxos de atendimento e monitoramento. A atuação articulada entre assistência social, saúde, educação, segurança pública e sistema de Justiça é considerada importante para reconhecer sinais de risco e agir antes que a violência se agrave.

Segundo Chimelly, a prevenção depende de uma rede de proteção capaz de compartilhar informações e responder de forma coordenada. O objetivo é evitar que situações de violência se prolonguem sem acompanhamento e que mulheres em risco deixem de receber o suporte necessário. O trabalho também envolve orientar os profissionais que atuam diretamente no atendimento às vítimas e aprimorar os mecanismos de encaminhamento entre os serviços.

Impactos sobre filhos e familiares das vítimas

Os feminicídios registrados em outubro também deixaram consequências para crianças e familiares. Em Vargem, cinco crianças perderam a mãe. Em Cocal do Sul, o crime ocorreu enquanto a vítima segurava o neto do casal, ainda bebê. Nos demais municípios, as mortes também atingiram familiares e pessoas próximas das mulheres assassinadas.

Além da investigação e da responsabilização dos suspeitos, o MPSC destaca a importância de considerar os impactos da violência sobre os familiares das vítimas, especialmente crianças que perdem a mãe em decorrência de feminicídio. O órgão também atua em iniciativas voltadas à identificação e à localização de órfãos desse tipo de crime, para facilitar o encaminhamento aos serviços de apoio e proteção.

Para a coordenadora-geral do NEAVIT, a prevenção exige uma cultura baseada no respeito, na igualdade e na autonomia. O trabalho envolve reconhecer que o fim de um relacionamento deve ser respeitado e que homens e mulheres têm os mesmos direitos de decidir sobre seus projetos de vida. A identificação precoce de ameaças e a resposta integrada dos serviços são apontadas como medidas necessárias para reduzir o risco de novos casos.

Onde buscar ajuda

Mulheres em situação de violência ou pessoas que conheçam casos podem buscar atendimento pelos seguintes canais:

  • 180 — Central de Atendimento à Mulher: orientação e registro de denúncias.
  • 190 — Polícia Militar: para situações de emergência.
  • 197 — Polícia Civil: para denúncias e informações sobre crimes.
  • Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAM): atendimento presencial, conforme a disponibilidade regional.
  • NEAVIT do MPSC: os canais de atendimento por região podem ser consultados no site do Ministério Público de Santa Catarina.

O MPSC informa que o sigilo das denúncias é preservado. Em situações de perigo imediato, a orientação é acionar os serviços de emergência.

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