HISTÓRIAS DA POLÍTICA CATARINENSE que a História não contou: a prevalência do bom senso e a licença para renunciar.


Foto de Paulo Gouvêa

Paulo Gouvêa

Antigo JSC. Arquivo Histórico de Blumenau.

Em 1990, logo antes da data final para renúncia dos ocupantes de cargos públicos que pretendessem disputar a eleição para algum outro mandato, o pensamento dominante em Blumenau era de que a ruptura do mandado do Prefeito Vilson Kleinubing para disputar qualquer posição que não a de Presidente da República ou Governador do Estado, poderia ser considerada uma traição ao povo de Blumenau.

Muito provavelmente, candidatos de outros partidos fariam a exumação das antigas acusações de que Vilson, se eleito para a Prefeitura em 1988, faria de Blumenau um trampolim para se candidatar a Governador.

Mesmo com as evidências de que sua promessa deixou de ser honrada com o apoio de grande maioria da população, o antigo JSC exibiu, já em 1990 e com a candidatura de Vilson confirmada, uma engenhosa charge de Kiko Novaes que mostrava VK se jogando de um trampolim afixado à torre da então Igreja Matriz.

Os possíveis efeitos colaterais no caso de um erro de avaliação.

Caso fracassassem as negociações que ocorriam entre Esperidião Amin e Vilson Kleinubing, pré-candidatos da “União por Santa Catarina”, provável coligação entre PDS e PFL, seria grande o prejuízo para os dois partidos. Ficando Kleinubing na Prefeitura, a candidatura, no seu todo, ficaria capenga, pondo em risco uma eleição que, com os dois unidos numa mesma chapa, já largaria na condição de favorita.

O Presidente do PDS de Blumenau, Arno Garbe, estampou em nota da imprensa o estado de espírito vigente na ocasião.

O destino de Vilson.

Antigo JSC. Arquivo Histórico de Blumenau.

Particularmente para Kleinubing, o ingresso das negociações em algum beco sem saída, e um equivocado entendimento quanto à definição do cargo a ser disputado, poderia provocar danos irreparáveis.

Na hipótese de que ele não fosse confirmado para a posição mais alta da chapa após sua renúncia ao cargo de Prefeito e acabasse disputando vaga para o Senado, seria provável um significativo encolhimento da sua votação em Blumenau e no Estado, contaminando a chapa toda. Não tinha jeito: ou bem Vilson tinha a garantia do apoio dos dois principais partidos da coligação que se bucava – PDS e PFL para a candidatura ao Governo – ou ele ficaria ocupando o posto de Prefeito até 1994.

As conversas entre os partidos e entre os dois concorrentes.

Antigo JSC. Arquivo Histórico de Blumenau.
Antigo JSC. Arquivo Histórico de Blumenau.

Por essas circunstâncias, as reuniões entre representantes dos dois partidos se tornaram frequentes e, nos dias finais da decisão, já praticamente ininterruptas. E o mais importante: os dois prefeitos, Kleinubing e Amin, em particular, examinavam todas as implicações das possíveis escolhas. Usavam da sua proximidade política e, sobretudo, de sua amizade pessoal, para encontrarem um caminho que fosse aceitável para ambos.

Conta a lenda que, ao final, o acordo foi fechado em uma pescaria, a dois, sem testemunhas.

A fórmula menos dolorosa para ambos.

Antigo JSC. Arquivo Histórico de Blumenau.

Como enfatizei na coluna anterior, era politicamente inviável para o então Prefeito de Blumenau abandonar o cargo, apenas 15 meses após ter assumido, para concorrer a qualquer cargo que não fosse o Governo do Estado. Vilson teve sua promessa de não renunciar ao cargo de Prefeito liberada pelo povo da sua cidade com uma condição: só valia para uma candidatura ao Governo.

A cidade entendia que só ali Vilson poderia ajudar Blumenau ainda mais do que faria na Prefeitura. Descumprir seu compromisso para buscar outro cargo seria uma desonra imperdoável.

A situação de Esperidião Amin era semelhante, mas, sua eventual renúncia não teria o impacto e as consequências desastrosas como as que recairiam sobre Vilson.

O entrave foi resolvido graças ao reconhecimento de Esperidião de que sua renúncia lhe doeria menos do que a que sofreria Vilson.

Próxima coluna.

A renúncia, novo Prefeito, expectativas.