Dar forma ao invisível: o psicodrama como caminho para elaborar o sofrimento psíquico


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Adriane Werlang / Psicóloga (CRP 12/22879)

Nem todo sofrimento psíquico consegue ser traduzido em palavras. Muitas vezes, ele se manifesta como um aperto no peito, um nó na garganta ou uma crítica interna constante que fragiliza a forma como a pessoa se percebe.

No psicodrama, uma das abordagens da Psicologia, uma das possibilidades terapêuticas é dar forma a essas experiências. Por meio da dramatização, aquilo que antes existia apenas no mundo interno pode ser representado, observado e elaborado. Em alguns casos, esse processo também se amplia por meio da arte.

Em um trabalho realizado em psicoterapia, uma pessoa trouxe a autodepreciação como um dos principais elementos do seu sofrimento. Durante a sessão, foi convidada a dramatizar o próprio coração ferido. A experiência permitiu um contato diferente com aquilo que vivia internamente e, posteriormente, foi transformada na obra de arte que acompanha este texto.

Arte criada por IA após dramatização em sessão de psicoterapia / Arquivo pessoal (Imagem liberada para publicação)

A imagem não representa um diagnóstico, tampouco define quem a criou. Ela simboliza uma experiência humana. Os espinhos atravessando o coração expressam as marcas deixadas pelos movimentos de autodepreciação, enquanto a garganta parece revelar uma angústia que busca encontrar voz.

Na clínica, a arte não serve para interpretar pessoas, mas para favorecer a simbolização. Quando o sofrimento ganha uma imagem, ele também pode ganhar novos significados. O que antes parecia apenas dor passa a ser algo que pode ser olhado, compreendido e transformado.

Essa compreensão dialoga com a filosofia de Baruch Spinoza, que inspira parte da minha prática clínica. Para o filósofo, somos continuamente afetados pelos encontros que vivemos, e esses afetos podem ampliar ou reduzir nossa potência de agir. A psicoterapia busca justamente favorecer encontros que possibilitem novas formas de existir e de se relacionar consigo mesmo.

Ao contemplar esta obra, eu também fui afetada. Não apenas pela sua força estética, mas pelo encontro que ela produz. Afinal, toda criação artística comunica algo de quem a produz, mas também desperta algo em quem a observa.

Por isso, deixo um convite ao leitor: antes de buscar um significado para esta imagem, perceba o que acontece em você ao contemplá-la.

Quais afetos essa obra desperta?

Talvez a resposta diga tanto sobre o encontro entre você e a obra quanto sobre a própria imagem.

Adriane Werlang | Psicóloga (CRP 12/22879) e Jornalista (3820SC)