Debate sem os líderes: quando faltar ao confronto também vira estratégia eleitoral.


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Thaís Shihádeh

Primeiro debate presidencial de 2026 expõe uma nova lógica de campanha: para os líderes nas pesquisas, evitar o confronto pode significar preservar vantagem; para os demais, a ausência dos adversários abre espaço para ocupar o centro do palco.

O primeiro debate presidencial das eleições de 2026, realizado pela Band neste domingo, 23 de agosto, terminou sendo tão marcado pelas ausências quanto pelos candidatos que aceitaram o confronto. O encontro havia sido planejado para reunir seis presidenciáveis — Lula, Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Renan Santos e Augusto Cury —, mas apenas três efetivamente participaram: Caiado, Renan e Cury.

A ausência de Lula e Flávio Bolsonaro não foi um detalhe de agenda. Os dois aparecem como os principais nomes da disputa nas pesquisas e, justamente por isso, enfrentam um dilema estratégico: participar de um debate significa ganhar exposição, mas também oferecer aos adversários uma oportunidade rara de ataque direto, sem a possibilidade de controlar completamente o ambiente da comunicação.

Para quem lidera ou ocupa posição competitiva na corrida eleitoral, não participar pode ser uma forma de administrar riscos. Um desempenho ruim pode produzir manchetes negativas, cortes nas redes sociais e dias de repercussão. Já a ausência, embora gere críticas, permite que o candidato mantenha sua comunicação concentrada em ambientes mais controlados. Lula justificou a decisão apontando preocupação com as condições de igualdade do confronto e com a participação de candidatos que, segundo as regras eleitorais, não teriam necessariamente direito assegurado a todos os debates.

Flávio Bolsonaro adotou estratégia semelhante, optando por não comparecer e mantendo a linha de que o confronto direto com Lula é o debate que mais interessa à sua campanha. Na prática, a decisão cria uma espécie de duelo por exclusão: se um dos dois não vai, o outro também reduz o incentivo para comparecer, evitando transformar-se no principal alvo de uma noite em que o adversário direto não estará presente.

Há, porém, um efeito colateral importante. Quando os líderes deixam o palco, os candidatos menores ganham algo que normalmente seria difícil de conquistar: atenção nacional.

Foi exatamente o que ocorreu na Band. Ronaldo Caiado e Renan Santos compareceram e transformaram a ausência dos principais concorrentes em um dos assuntos centrais do próprio debate. Renan, especialmente, explorou a ausência de Lula e Flávio como elemento de discurso, enquanto Caiado também utilizou o espaço para se diferenciar.

E aqui surge um ponto importante sobre Augusto Cury.

Inicialmente, Cury havia decidido não participar do debate justamente como forma de protesto diante da ausência de Lula e Flávio Bolsonaro. A avaliação era de que, sem os dois principais protagonistas da disputa, o encontro perderia parte de sua relevância e poderia transformar os candidatos presentes em participantes de um confronto secundário. Mas Cury mudou de posição minutos antes do programa e decidiu comparecer, afirmando que o faria em respeito ao jornalista Fernando Mitre.

A mudança de Cury acabou produzindo outro efeito estratégico: em vez de simplesmente ficar fora do debate, ele entrou no palco justamente para questionar a lógica de uma eleição excessivamente concentrada na polarização. Durante o programa, criticou o tom agressivo de Renan Santos e defendeu uma discussão mais voltada ao conteúdo e ao debate democrático.

O episódio revela uma transformação importante nas campanhas modernas.

Debate eleitoral já não é apenas um espaço para apresentar propostas. É também uma disputa pela narrativa antes, durante e depois do programa.

Participar possui vantagens evidentes: permite falar diretamente ao eleitor, apresentar propostas, responder adversários e conquistar espaço na imprensa e nas redes. Para candidatos com menor exposição, como Renan Santos, o ganho pode ser ainda maior. A participação na Band representou uma oportunidade de alcançar uma audiência que dificilmente seria obtida apenas com propaganda convencional.

Não participar também pode trazer vantagens. O candidato evita ataques, reduz o risco de cometer erros ao vivo e mantém o controle sobre a própria comunicação. Para quem já possui grande reconhecimento público, a exposição adicional pode representar menos benefício do que para quem precisa construir notoriedade.

Mas existe um preço.
A cadeira vazia também comunica.

Quando um candidato falta, seus adversários podem preencher o espaço com críticas, questionamentos e interpretações sobre os motivos da ausência. Foi o que aconteceu na Band: os púlpitos reservados aos candidatos ausentes permaneceram vazios e a própria ausência passou a fazer parte do debate.

O resultado foi um dos primeiros debates presidenciais mais esvaziados em décadas, mas não necessariamente um debate irrelevante. Pelo contrário: a ausência dos dois nomes mais fortes acabou se tornando o principal assunto da noite.

A grande questão agora é saber se essa estratégia será mantida nos próximos confrontos.

Para Lula e Flávio Bolsonaro, a lógica parece ser preservar o confronto direto para momentos considerados mais vantajosos. Para Caiado, Renan e Cury, o desafio é transformar a ausência dos protagonistas em oportunidade de crescimento sem depender exclusivamente da crítica aos adversários.

No fim, o debate da Band deixou uma mensagem que pode ser decisiva para a campanha de 2026: em uma eleição cada vez mais disputada também nas redes sociais, estar presente é uma estratégia — mas faltar também pode ser.
E, pela primeira vez, a cadeira vazia talvez tenha falado tanto quanto quem estava diante do microfone.