Mensagens expõem articulação antes de depoimentos no caso de supostos “funcionários fantasmas” do gabinete de Carlos Bolsonaro


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Marcelo Lula

Mensagens revelam reunião realizada antes dos depoimentos de investigados – Imagem: Divulgação

Mensagens divulgadas pela jornalista Juliana Dal Piva, do ICL Notícias, mostram que Luciana Almeida, ex-assessora de Carlos Bolsonaro (PL) na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, manteve contato com o coronel reformado Guilherme dos Santos Hudson para tratar de um encontro em um escritório de advocacia. Hudson foi assessor de Flávio Bolsonaro (PL) na Assembleia Legislativa Fluminense.

A conversa ocorreu uma semana antes de o filho e duas noras do coronel, todos ex-assessores de Carlos Bolsonaro, prestarem depoimento ao Ministério Público do Rio de Janeiro. Guilherme de Siqueira Hudson, Ananda Hudson e Monique Hudson foram chamados a explicar a atuação no gabinete diante das suspeitas de que teriam recebido salários durante anos sem exercer efetivamente as funções para as quais estavam nomeados pelo então vereador, o que levantou a hipótese de serem funcionários fantasmas. Nos depoimentos, os três negaram as acusações.

A proximidade entre o encontro e as oitivas chama atenção e levanta questionamentos sobre uma possível articulação entre a então assessora de Carlos Bolsonaro e os demais envolvidos antes dos depoimentos. O conteúdo conhecido das mensagens, no entanto, não permite afirmar que tenha ocorrido combinação de versões. Segundo Juliana Dal Piva, Luciana Almeida foi procurada para comentar o conteúdo das conversas, mas não respondeu.

A ex-assessora já havia aparecido em outra investigação relacionada à família Bolsonaro. Segundo apurações da Polícia Federal, no final de 2022, quando Jair Bolsonaro ainda ocupava a Presidência da República, Luciana procurou Alexandre Ramagem, ex-diretor-geral da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), em busca de informações sobre investigações que tinham como alvo os filhos do então presidente. Àquela altura, Ramagem já havia deixado o comando da agência.

Investigação

A investigação sobre o gabinete de Carlos Bolsonaro foi aberta pelo Ministério Público do Rio de Janeiro em julho de 2019 para apurar indícios de desvio de dinheiro público por meio da suposta devolução de parte dos salários de servidores, a chamada “rachadinha”. O procedimento foi motivado por informações reveladas em reportagem das jornalistas Juliana Dal Piva e Juliana Castro, publicada na revista Época. A apuração jornalística identificou pessoas nomeadas no gabinete de Carlos sobre as quais havia suspeitas de que recebiam salários pagos com dinheiro público, mas não trabalhavam de fato nas funções para as quais haviam sido contratadas.

Entre os investigados estavam Guilherme de Siqueira Hudson, Ananda Hudson e Monique Hudson. Os três integram a família do coronel reformado Guilherme dos Santos Hudson, ex-colega de Jair Bolsonaro na Academia Militar das Agulhas Negras (Aman) e tio da segunda esposa do ex-presidente.

No decorrer da investigação, o MP-RJ convocou os três ex-assessores para prestar depoimento em 11 de novembro de 2019. É nesse ponto da cronologia que aparecem as mensagens reveladas agora pelo ICL Notícias.

Mensagem: “estaremos lá”

Em 4 de novembro de 2019, sete dias antes dos depoimentos, Luciana Almeida encaminhou ao coronel Hudson um endereço localizado no Centro do Rio de Janeiro e escreveu: “estaremos lá”.

Hudson respondeu: “obrigado”.

No dia seguinte, Luciana telefonou para o coronel, mas a chamada não foi atendida. Na sequência, Hudson encaminhou a ela cópias das três requisições expedidas pelo Ministério Público para que Guilherme, Ananda e Monique comparecessem para prestar depoimento.

O endereço enviado por Luciana correspondia ao escritório do advogado Jefferson Gomes, que atuou na defesa do filho e das noras do coronel durante a investigação. A sequência dos acontecimentos acrescenta um novo elemento à apuração. Antes das oitivas no Ministério Público, integrantes da família Hudson já haviam mantido contato presencial com o gabinete de Carlos Bolsonaro.

Em 2020, O Globo revelou que o coronel e seu filho estiveram no gabinete do então vereador, na Câmara Municipal do Rio, em 30 de outubro de 2019. As mensagens divulgadas agora indicam a articulação de outro encontro poucos dias depois e antes dos depoimentos marcados pelo MP-RJ.

Advogado confirma

Jefferson Gomes confirmou à jornalista Juliana Dal Piva que recebeu Guilherme de Siqueira Hudson, Ananda Hudson e Monique Hudson em seu escritório. O advogado, porém, afirmou nunca ter se encontrado com o coronel Guilherme dos Santos Hudson e disse desconhecer as mensagens reveladas na reportagem.

“Como advogado eu recebi Guilherme Hudson (filho), Ananda Hudson e Monique Hudson em meu escritório, onde prestei serviços de advocacia durante todo o curso da investigação a que foram submetidos, não podendo dizer mais nada sobre isso pela minha obrigação de respeito ao dever de sigilo advogado-cliente. No mais, jamais estive com Guilherme Hudson pai, conhecendo-o, obviamente e somente por nome, por ser pai do meu cliente. E desconheço as mensagens mencionadas”, declarou.

Uma década nomeado

Guilherme de Siqueira Hudson constou como chefe de gabinete de Carlos Bolsonaro por quase uma década, entre abril de 2008 e janeiro de 2018. Apesar do longo período no cargo, ele não tinha crachá funcional. Outro elemento considerado na apuração foi o fato de manter residência fixa em Resende desde 2012, onde possui escritório de advocacia. O município fica a cerca de 170 quilômetros da capital fluminense.

Durante o período em que permaneceu nomeado, Guilherme recebeu aproximadamente R$ 2,3 milhões em salários, considerando os valores atualizados apresentados pela apuração.

Ananda Hudson, mulher de Guilherme, também passou pelo gabinete. Ela foi nomeada em março de 2009 e permaneceu no cargo até agosto de 2010. No mesmo período, cursava Letras em Resende. Monique Hudson, que foi casada com outro filho do coronel, também manteve residência em Resende enquanto aparecia formalmente como assessora de Carlos Bolsonaro. Ela permaneceu lotada no gabinete até dezembro de 2014 e, durante parte desse período, também cursou Letras na Associação Educacional Dom Bosco.

Ex-colegas de faculdade relataram que Monique era uma aluna assídua e que não tinham conhecimento de que ela trabalhasse na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Essas circunstâncias passaram a integrar os elementos analisados na investigação sobre a possibilidade de pessoas terem recebido salários do Legislativo municipal sem exercer efetivamente as atividades correspondentes aos cargos, prática conhecida como “funcionário fantasma”.

Coronel Hudson

O coronel Guilherme dos Santos Hudson foi investigado no inquérito que apurou suspeitas de peculato e lavagem de dinheiro no antigo gabinete de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. A investigação teve como um dos pontos de partida informações sobre movimentações financeiras identificadas a partir de relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).

Posteriormente, o Superior Tribunal de Justiça anulou quebras de sigilo utilizadas na investigação, decisão que teve reflexos sobre o procedimento. O caso envolvendo Hudson acabou arquivado.

Investigação sobre Carlos

A investigação envolvendo Carlos Bolsonaro continua aberta no Ministério Público do Rio de Janeiro, conforme já divulgado por esta coluna. A apuração foi retomada em fevereiro deste ano, após permanecer quase dois anos sem avanços.

Em agosto de 2024, o promotor Alexandre Murilo Graça denunciou o chefe de gabinete de Carlos e outros seis assessores. Eles se tornaram réus em junho deste ano. A parte da primeira investigação relacionada aos integrantes da família Hudson havia sido arquivada.

O Ministério Público também chegou a pedir o arquivamento da apuração em relação a Carlos Bolsonaro, mas o Tribunal de Justiça do Rio discordou do entendimento. Com isso, o caso foi reaberto e permanece sob sigilo. Há ainda uma frente na esfera cível. Em julho deste ano, o MP-RJ pediu a devolução de R$ 1,9 milhão aos cofres públicos por sete ex-assessores de Carlos Bolsonaro. Segundo o Ministério Público, o valor teria sido desviado por meio de um esquema de rachadinha no gabinete do então vereador.