As duas faces do Presidente Figueiredo: pacificador e malcriado (Primeiro de 3 capítulos).


Foto de Paulo Gouvêa

Paulo Gouvêa

Antecedentes narrados em comentários anteriores.

Em 15 de março de 1979, no Congresso Nacional, Figueiredo toma posse como Presidente. Fotógrafo não identificado.

Em 15 de março de 1979, o General João Baptista de Oliveira Figueiredo tomou posse como Presidente da República com a missão de encerrar o ciclo autoritário e reinstalar a democracia no País. O Ministério da Comunicação Social resolveu transformar o militar durão e mal-humorado, que ele era, em uma espécie de “presidente popular”. Em novembro do mesmo ano ele viajou para Florianópolis já em trajes civis, com o nome abreviado para João Figueiredo e despojado de seus costumeiros óculos escuros. Foi com este modelo que ele, oficial da Cavalaria, deu com os burros n’água. Quando o Presidente estava na sacada do Palácio Cruz e Souza, sede do Governo Estadual, saudando o povo, um grupo de jovens contestadores, interpretando mal um gesto seu, partiu para o desaforo. E, desse repertório, irrompeu uma desabonadora referência à mãe de Figueiredo. Foi o estopim para a explosão da “Novembrada”. O personagem do novo João esqueceu as falas do papel que lhe cabia e reagiu no seu velho estilo cavalariano: partiu para o confronto.

Controverso, mas operante, Figueiredo cumpriu sua missão.

Figueiredo sanciona a Lei da Anistia. Fotógrafo não identificado.

O Presidente Figueiredo, notoriamente, não era um exemplo de pessoa fina, sensata, educada, diplomática. Fez e aconteceu em palavras e obras, dentro e fora do Governo. No entanto, há que lhe fazer justiça: ele não arredou pé do compromisso de que fora incumbido. Persistiu no rumo da redemocratização, até mesmo, paradoxalmente, com ameaças de “prender e arrebentar” quem se opusesse a esse propósito. Frase esta que, diga-se de passagem, tem sido citada em contexto bem diferente.

Um dos objetivos mais difíceis da transição democrática era a aprovação de uma absolvição geral para todos os que se envolveram em conflitos durante o período militar. Ainda em agosto de 1979 (três meses antes da Novembrada, portanto), Figueiredo preparou, enviou ao Congresso e, após a votação favorável, sancionou a Lei da Anistia.

O documento não foi” geral e irrestrito” como defendiam, no Congresso e nas ruas, os defensores de que fossem incluídos no perdão também os que haviam praticado atos terroristas, como atentados a bomba, execuções após julgamentos privados, e sequestros. Mas, como reconheceu a própria oposição política no Congresso, aquela que foi aprovada era a “anistia possível”. Na decisão final, em votação simbólica, grande parte do oposicionista MDB apoiou o projeto de Figueiredo. O raciocínio era simples e pragmático: antes aquela anistia do que nenhuma anistia.

Ela permitiu, nas semanas seguinte, o retorno ao Brasil dos exilados, banidos ao longo dos governos militares. Voltaram, entre muitos outros, figurões da esquerda, como o Presidente do Partido Comunista Luiz Carlos Prestes, o ex-Governador do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro Leonel Brizola, o ex-Governador de Pernambuco Miguel Arraes e o líder das “Ligas Camponesas’ Francisco Julião.

Embora tivesse teimado em manter o texto da Anistia como estava, sem flexibilizações, Figueiredo não se opôs, pouco tempo mais tarde, que muitos dos excluídos daquele ato também passassem a ser soltos por revisões dos Tribunais Militares ou por indulto dele próprio, do Presidente da República. Sete dos jovens que colocaram a mãe dele “em pauta”, acendendo a espoleta da Novembrada – e acabaram presos – foram libertados já duas semanas depois do evento. Colaborou bastante para esse resultado a bênção e a ajuda do Governador Jorge Bornhausen, e, também, a pressão popular e da imprensa.

Raios e trovões nos céus da democracia.

No período em que governou o Brasil, aquele General Presidente muitas vezes grosso, quase sempre ranzinza e intempestivo, terminou com o sistema bipartidário que vigorava desde os primórdios do Regime Militar, reinaugurando o pluripartidarismo. Enfrentou a chamada “linha dura” dos militares, assim como Geisel já o fizera, para, no caso de Figueiredo, levar adiante tanto a anistia como a abertura do leque partidário, e, mais ainda, para preparar o complexo capítulo final dessa fase da história: o momento da escolha de um novo Presidente. Figueiredo foi teimoso, insistiu, persistiu, e emplacou uma transição aceitável e digna. Boa para o Regime que, naquele momento já estava bastante enfraquecido pelo desgaste de 21 anos de poder, e boa para o País.

É simbólico o fato de que, nesse momento crucial para a história, João Figueiredo tenha enfrentado a má vontade de ambos os lados da contenda: o pessoal da oposição que brigava, primeiro por anistia mais ampla, e depois por eleições diretas e imediatas, as históricas “diretas já”; e, do outro lado do rinque, os brucutus da “linha dura” que não queriam anistia, não queriam eleições que não fossem perfeitamente controladas e não queriam abertura nem transição para a democracia. O Presidente, porém, conseguiu contemporizar com os radicais do seu time e articulou uma eleição presidencial, ainda indireta, mas, com candidaturas abertas aos civis. E com uma garantia implícita de que a eleição seguinte, aí sim, seria livre e direta.

Próxima Coluna.

Na segunda feira que vem vou comentar as sui-generis eleições presidenciais de 1985, com suas mudanças de percurso e o papel decisivo da “Frente Liberal” com Jorge Bornhausen no primeiro time dos articuladores. Vou também relembrar traços da personalidade e Figueiredo e algumas das mais famosas frases.