Uma emergência Hematológica chamada Leucemia Promielocítica Aguda


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Everton Amorim | Farmacêutico-Bioquímico

Receber o diagnóstico de uma leucemia é um daqueles momentos em que o chão parece sumir sob os pés. O câncer no sangue carrega, no imaginário popular, o peso de tratamentos devastadores e prognósticos reservados. No entanto, a medicina moderna vem escrevendo capítulos surpreendentes. O maior exemplo dessa revolução atende por um nome complexo: Leucemia Promielocítica Aguda (LPA).

Há algumas décadas, a LPA era a forma mais temida e fulminante de leucemia. Hoje, ela ostenta um título impressionante: é o tipo de câncer no sangue com as maiores chances de cura da oncologia atual, superando a marca de 90% de sucesso. E o mais fascinante dessa história é como a ciência alcançou essa vitória usando um derivado de vitamina e uma substância historicamente conhecida como veneno.

Células que “esqueceram” como crescer

Para entender a reviravolta, precisamos olhar para a medula óssea, a “fábrica” do nosso sangue. Na LPA, ocorre uma fusão entre o cromossomo 15 (PML) e o 17 (RARA) gerando a mutação PML::RARA, que faz com que as células de defesa sofram uma espécie de pane: elas esquecem como amadurecer.

Presas em um estágio jovem e disfuncional, essas células passam a se multiplicar desordenadamente, bloqueando a produção do sangue saudável. O grande perigo inicial da LPA, contudo, é o grave distúrbio de coagulação que ela provoca, gerando um risco altíssimo de sangramentos graves e espontâneos.

O papel do laboratório clínico no diagnóstico

O analista clínico presta um papel importantíssimo no diagnóstico da LPA, uma vez que os achados no hemograma, através da microscopia, revelam as características celulares dessa leucemia que devem ser reportadas imediatamente ao médico responsável pelo paciente. Os dados hematológicos, bioquímicos e genéticos associados à história clínica do paciente conduzem à uma conduta assertiva que salva vidas.

Revolução do tratamento: ATRA e Arsênio

A grande virada na história da medicina aconteceu quando os cientistas descobriram que, em vez de tentar destruir todas as células com quimioterapia em altas doses (o que debilitava muito o paciente já fragilizado), era possível fazer algo mais inteligente: forçá-las a amadurecer.

O tratamento padrão ouro atual combina duas substâncias principais:

ATRA (Ácido Todo-Transretinoico): Um composto derivado da Vitamina A que atua diretamente no DNA da célula tumoral, “destravando” o seu desenvolvimento para que ela volte a crescer e morra naturalmente.

Trióxido de Arsênio (ATO): Sim, o arsênio, famoso na literatura como um veneno letal. Em doses terapêuticas milimétricas e controladas, ele age em sinergia com o ATRA, eliminando as células doentes de forma cirúrgica.

Essa combinação revolucionou o tratamento. Para uma grande parcela dos pacientes foi possível reduzir drasticamente, ou até eliminar, o uso da quimioterapia convencional, diminuindo os efeitos colaterais severos, como a queda de cabelo e as infecções graves.

LPA exige rapidez no diagnóstico e tratamento

Se a cura passa dos 90%, por que a LPA ainda nos preocupa? A resposta está no tempo.

Como os distúrbios de coagulação evoluem de forma muito rápida nos primeiros dias da doença, o maior desafio atual não é o tratamento, mas o diagnóstico precoce. O início da medicação precisa acontecer nas primeiras horas de suspeita médica, muitas vezes antes mesmo do resultado dos exames genéticos finais.

Por isso, a informação é a nossa melhor aliada. Fique atento a sinais que surgem de forma súbita e sem explicação aparente:

Sangramentos inexplicáveis na gengiva ou no nariz;

Manchas Roxas (equimoses) ou pontinhos vermelhos (petéquias) na pele, sem que tenha havido pancadas;

Fadiga extrema, fraqueza e palidez;

Febre ou infecções persistentes.

Graças ao avanço da ciência e ao fato de esse tratamento de ponta ser amplamente preconizado e disponibilizado de forma gratuita no Brasil através do SUS e dos planos de saúde, a Leucemia Promielocítica Aguda deixou de ser uma sentença para se tornar uma história de superação.

Everton Amorim | Farmacêutico-Bioquímico (CRF-SC 20537)

Esp. Hematologia Clínica e Laboratorial

Supervisor Técnico no laboratório IMAS do Hospital Infantil Joana De Gusmão.