
Precisamos conhecer o modelo chinês de universidade e o que ele pode nos ensinar para aperfeiçoarmos a Universidade Gratuita. O sistema universitário do país asiático é focado em três premissas básicas: planejamento estatal; alto investimento público em ciência, notadamente nas engenharias, exatas e tecnologia; e rigorosa meritocracia. Essa fórmula colocou a China na posição de potência em pesquisa e inovação. No último Ranking CWTS Leiden de 2024, das dez instituições mais bem colocadas, os chineses ocuparam oito vagas, liderados pela Zhejiang University.
O modelo busca alinhar o ensino superior ao desenvolvimento nacional. A ideia é desenvolver, por meio da academia, as competências que sustentarão o país ao longo dos anos. A lógica de alocação baseia-se no planejamento governamental direto de vagas com base na demanda da indústria. Já o critério para distribuição de recursos estatais é o avanço científico e tecnológico, visando a propriedade intelectual e a transferência de conhecimento para as empresas do país. Por fim, o processo seletivo é marcado pelo mérito: para ingressar, é preciso disputar um exame nacional altamente concorrido.
Já a Universidade Gratuita, criada pelo atual Governador, foi estruturada em outra lógica. Aqui, a distribuição ocorre majoritariamente em áreas de Saúde e Humanas. O curso de Direito, por exemplo, concentra 20% dos alunos subsidiados pelo programa. A alocação não segue um direcionamento estatal – isto é, um alinhamento com o setor produtivo para gerar inovação e ciência. É o próprio estudante quem escolhe a graduação, de acordo com sua preferência.
O objetivo do programa não é produzir pesquisa, nem gerar ciência para impactar a indústria local. Trata-se de um ensino voltado tão somente à formação rápida para inserção no mercado de trabalho. Não há uma sintonia com as atividades industriais, tampouco a intenção de usar os incentivos universitários para impulsionar o desenvolvimento tecnológico.
Percebe-se que as instituições não possuem metas de inovação e, com o programa, tornaram-se dependentes do orçamento público para sustentar suas operações. Falta articulação entre Estado, universidades e iniciativa privada. A maioria dos cursos contemplados já apresenta saturação de profissionais, como Direito, Enfermagem e Psicologia, o que significa que o mercado não conseguirá absorver essa massa de futuros bacharéis.
Precisamos discutir profundamente o modelo da Universidade Gratuita. Na formatação atual, não haverá ganho relevante para a comunidade catarinense, gerando apenas mais desempregados no futuro. A sociedade que custeia esse investimento precisa reestruturá-lo, o que exige olhar atentamente para a estratégia chinesa. Precisamos construir uma nova matriz que integre a formação de talentos ao investimento privado e às políticas públicas de desenvolvimento.
Essa mudança passa por destinar a maioria do orçamento a cursos de Engenharia, Ciência da Computação, Biotecnologia, Agronomia e setores estratégicos; vincular o subsídio ao ecossistema industrial para integrar universidade e empresa; e condicionar o repasse de verbas à criação de patentes, à incubação de startups e a laboratórios compartilhados com a indústria regional. Sem essa guinada, corremos sérios riscos de criarmos a “indústria de diplomados” em Ciências Humanas e da Saúde sem alocação no mercado.
