Moções de aplausos: Vereador SGT Pacheco critica o que ele chamou de “desvio de foco”: “Parece que a Câmara virou uma igreja”


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Jean Carlo Lima

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Na sessão da Câmara do dia 08/09, consegui ter uma ideia do quanto a bajulação, quando serve para sustentar o ego de alguns protagonistas, tem capacidade de movimentar a economia e a própria Câmara de Vereadores.

Para homenagear uma cidadã com uma moção de aplausos, movimentou-se um grupo de comunicação — com repórteres de rádios —, um grupo de amigos, que encheu a Casa, e os vereadores que, em sua grande maioria, não perderam a oportunidade de aproveitar a presença da imprensa para discursar e aparecer bem na foto.

Quem demonstrou descontentamento com a longa sessão de homenagem foi o vereador Sargento Pacheco. Aliás, em outra ocasião, ele já havia comentado que moções de aplausos, nas suas palavras, “só servem para o vereador tomar pau”. Já na sessão do dia 08/09, diante do plenário cheio, fez a seguinte crítica: “Aqui eu vejo muito desvio de foco… nós temos que ser mais úteis à sociedade. Tem coisas aqui que às vezes têm mais conotação religiosa do que legislativa. Parece que aqui virou uma igreja.”

O exemplo da igreja, naquela oportunidade, não me pareceu o mais adequado para ilustrar o tal “desvio de foco” apontado pelo vereador, na tentativa de demonstrar seu descontentamento com a improdutividade da Câmara de Vereadores. Mas é preciso concordar que esse “desvio de foco” decorre da própria atuação parlamentar de uma legislatura que, do ponto de vista funcional, parece muito mais um braço auxiliar do Executivo. Quanto às atribuições próprias de um vereador, como fiscalizar e legislar, a atuação é pífia.

Talvez o problema, portanto, não seja a Câmara parecer uma igreja. O problema começa quando ela deixa de parecer uma Câmara: quando fiscalizar, legislar e confrontar o Executivo cedem espaço a homenagens, discursos e manifestações que pouco têm a ver com a função para a qual os vereadores foram eleitos.

Por outro lado, eu mesmo, participando de sessões da Câmara, por vezes me senti dentro de um culto, dependendo da pauta e de quem a propõe naquela sessão.

Hoje, um terço da atual legislatura é composto por vereadores com forte ligação com igrejas evangélicas, reflexo de uma sociedade que tem transformado igrejas em capital eleitoral por meio da chamada teologia do domínio. Se a sessão da Câmara, algumas vezes, parece um culto, os cultos evangélicos, por vezes, parecem comitês eleitorais.

No ano passado, escrevi um artigo abordando o tema da mistura entre política e religião. Em sociedades marcadas por instituições mais frágeis e menor acesso à educação de qualidade, religião e política encontram, historicamente, terreno mais fértil para se misturar. É uma discussão que ultrapassa os limites de Lages e da própria Câmara de Vereadores.

Contudo, esse debate é profundo demais para a alçada de uma Câmara de Vereadores. Sabemos que quem foi eleito com o voto dos fiéis, muitas vezes, precisará fazer alguns acenos públicos. Isso faz parte da própria dinâmica política e da representação.

Fé é uma escolha individual e merece respeito. A Câmara, porém, não é igreja, assim como igreja não deveria funcionar como comitê eleitoral. Quando cada instituição compreende o seu papel, ganha a democracia, e talvez sobre mais tempo para os vereadores fazerem aquilo para o qual foram eleitos: legislar e fiscalizar.