Entre o bolsonarismo e a perda de identidade; suposta rachadinha em gabinete de ex-deputado; cenário de 2028 começa a ser desenhado em BC – e outros destaques


Foto de Marcelo Lula

Marcelo Lula

Bolsonarismo pautou os políticos de centro – Imagem: Santa Catarina em Pauta

Há pelo menos três anos venho escrevendo e comentando que os partidos fora do bolsonarismo estavam alimentando um movimento que provocaria uma grande fratura na política de Santa Catarina e também no cenário nacional. Muitas lideranças perderam a própria identidade, abandonaram bandeiras históricas e tentaram surfar em um movimento que tem vida própria e uma identificação muito clara de quem realmente pertence a ele.

Nesse processo, aconteceu também aquilo que chamo de autointimidação. Políticos de partidos tradicionais abandonaram pautas que sempre defenderam e passaram a abraçar posições da direita bolsonarista que, em muitos casos, eles próprios criticavam. Tudo para não serem defenestrados por uma parcela do eleitorado que é muito ativa nas redes sociais.

O problema é que, na tentativa de conquistar esse público, muitos se esqueceram de quem já votava neles. Abandonaram bandeiras que, durante anos, deram sustentação aos seus mandatos, sem qualquer garantia de que seriam aceitos pelo eleitor bolsonarista. Também é verdade que parte desse eleitorado mudou, e muitos políticos se viram pressionados a mudar.

Vale dizer que é possível, sim, encontrar bolsonaristas em outros partidos além do PL. Existem lideranças que conseguem demonstrar uma identificação ideológica verdadeira e anterior. É uma situação diferente de quem se aproximou por pragmatismo eleitoral ou até por oportunismo político. Mas até esses nomes saíram com derrota dessa eleição.

O MDB é um exemplo que merece atenção. Embora Jair Bolsonaro tenha construído alianças com partidos do chamado Centrão durante seu governo, o discurso bolsonarista sempre explorou a rejeição à política tradicional. Algumas lideranças não souberam fazer essa leitura. Uma coisa é uma aliança política ou eleitoral; outra é imaginar que o eleitor bolsonarista passará a enxergar esses partidos como parte de seu time.

O PSDB talvez seja o exemplo mais emblemático desse processo. O partido teve enorme importância na história recente do país, especialmente com o Plano Real, fundamental para a estabilização econômica. Na minha avaliação, essa estabilidade também criou bases importantes para os primeiros governos de Luiz Inácio Lula da Silva. Porém, ao longo dos anos, os tucanos perderam espaço e identidade. Tentaram acompanhar uma onda que não nasceu dentro do partido e acabaram engolidos por ela. Aqui em Santa Catarina, o resultado eleitoral aprofundou esse cenário, sobretudo com a não reeleição do deputado estadual Marcos Vieira, sua principal liderança no estado.

O MDB também precisa olhar para esse movimento. O partido vem perdendo espaço e representação política na Assembleia Legislativa e na Câmara dos Deputados. Durante décadas, sua força esteve na capilaridade, na presença nos municípios e numa identidade reconhecida pelo eleitor. Agora, é preciso saber quanto disso ainda permanece.

A verdade é que, antes, talvez houvesse mais espaço para uma correção de rumo e até para uma volta às origens. Hoje, depois do tsunami provocado pelo domínio do PL nas urnas, é preciso primeiro avaliar o que sobrou para, depois, decidir qual caminho seguir.

Conforme abordei na coluna de ontem, algumas lideranças entendem que o país pode estar caminhando para uma polarização definitiva. Não necessariamente para um bipartidarismo formal, mas para uma disputa cada vez mais concentrada entre dois grandes campos.

Outros dirigentes entendem que o eleitor passou a exigir posicionamentos mais claros, seja de direita ou de esquerda, reduzindo o espaço do centro. Ainda é cedo para saber se esse será definitivamente o novo desenho da política brasileira. Os próximos dois anos ajudarão a responder.

O tsunami

Ao tentarem se parecer com aquilo que não eram, muitos partidos deixaram de mostrar ao eleitor aquilo que sempre foram. Alguns foram arrastados pelas urnas. Outros sobreviveram, mas seguem atônitos e apreensivos diante do que poderá acontecer nas próximas eleições. Agora, não há como fugir da discussão: os partidos tradicionais precisarão decidir se continuarão tentando surfar na onda dos outros ou se terão coragem de recuperar a própria identidade.

Desempenho

Júlia só não fez mais votos do que o PL e o PT – Imagem: Agência Câmara

A deputada federal Júlia Zanatta (PL) se reelegeu com históricos 560.223 votos. Ela fez mais votos do que o desempenho individual de alguns partidos. O MDB chegou a 411.685; Republicanos, 340.571; Novo, 302.952; PSD, 282.962; Podemos, 218.678; Progressistas, 191.874; União Brasil, 134.770; PCdoB, 115.825; e PV, 1.503. Júlia só não fez mais votos que o seu partido, o PL, que chegou a 1.539.134, incluindo os votos dela, e que o PT, que fez 574.630.

Merisio na capital

Desempenho de Merisio em Florianópolis chamou a atenção e provocou rumores – Imagem: Marcelo Lula

O nome de Gelson Merisio (PSB) começa a circular, ainda de forma inicial, como um possível candidato a prefeito de Florianópolis. Questionei uma fonte próxima a ele, que respondeu: “Sobre o Merisio, tudo que é humanamente possível de ser feito, acredito que pode ser feito. Mas desconheço essa proposta”, escreveu. O assunto teve início com a análise do desempenho de Merisio na capital no pleito de domingo, tendo sido o segundo mais votado, com 102.822 votos. O que se tem de oficial, segundo o próprio Merisio tem dito, é que o seu foco está na eleição ao Governo do Estado em 2030. Porém, na política, tudo é possível. Tentei ligar, mas Merisio não atendeu.

Rachadinha

Hobus foi deputado estadual pelo PSD e secretário de Estado – Imagem: Alesc

O Ministério Público abriu um procedimento preliminar de investigação criminal para apurar a denúncia de um suposto caso da chamada “rachadinha” no gabinete do ex-deputado Milton Hobus. A suposta prática de repasses indevidos de remuneração por servidores de seu gabinete teria ocorrido durante o mandato, entre 2019 e 2023. Em agosto, Hobus foi condenado a quatro anos, três meses e sete dias de prisão, em regime inicial semiaberto, pelo crime de fraude em licitação para a construção de uma ponte, quando era prefeito de Rio do Sul.

Nikolas sobre Carlos

Ligado a Ana Campagnolo aqui no estado, Nikolas explicou o motivo de não ter apoiado Carlos – Imagem: Rede social

Eleito ao Senado aqui por Santa Catarina, Carlos Bolsonaro (PL) foi alvo de duras críticas do deputado federal reeleito Nikolas Ferreira (PL-MG). Segundo o parlamentar de Minas Gerais, o “novo catarinense” ultrapassou um limite quando o acusou de tentar “calar e assassinar” o ex-presidente Jair Bolsonaro. “Ah, porque o Nikolas não colocou fulano de tal na colinha em Santa Catarina? Não coloquei e não colocaria. Ah, porque você é vingativo. Não. Porque eu tenho princípios”, respondeu Nikolas durante entrevista ao programa Pânico. Ferreira também citou outro episódio, quando apareceram mensagens de áudio entre ele e o banqueiro Daniel Vorcaro. “Você tem ideia do que foi, num dos dias mais difíceis para mim e para a minha família, um cara falando que eu estava do lado do sistema, tentando acabar com o pai dele?”, questionou.

Com Flávio

Deputado Rafael Pezenti levou as pautas do agro para Flávio Bolsonaro – Imagem: Divulgação

O deputado federal reeleito Rafael Pezenti (MDB) participou ontem, em Brasília, de uma reunião da Bancada Ruralista com o presidenciável Flávio Bolsonaro (PL). O tema: as pautas do agro. Pezenti, que é um dos diretores da bancada, levou demandas relacionadas à agricultura familiar, entre elas a crise enfrentada pelo setor leiteiro, a dificuldade de acesso ao crédito e a necessidade de fortalecimento do seguro agrícola. “Flávio se comprometeu com essas pautas, e nós vamos cobrar”, afirmou Pezenti.

Correção

Volnei Weber pretende voltar a disputar a Prefeitura de São Ludgero – Imagem: Alesc

Ontem escrevi que o deputado estadual Volnei Weber (MDB) foi suplente na chapa do deputado Antídio Lunelli (MDB) ao Senado. Na verdade, Weber foi o primeiro suplente na chapa de Esperidião Amin (Progressistas). Volnei deseja disputar a eleição de 2028 para a Prefeitura de São Ludgero, onde já foi prefeito.

Suplente de Lunelli

Clenilton Pereira é um provável candidato a prefeito de Araquari em 2028 – Imagem: Divulgação

O primeiro suplente na chapa de Antídio Lunelli (MDB) ao Senado foi Clenilton Pereira (UB), ex-prefeito de Araquari. A informação é que Pereira disputará novamente a Prefeitura de Araquari em 2028. Nos bastidores, é dito que Kátia Cardoso (MDB), ex-vereadora que ficou em terceiro lugar na eleição municipal passada, deverá ser a vice na chapa. A ideia é unir forças para enfrentar o candidato que será lançado pelo PL.

Cenário em BC

Fabrício deve disputar em 2028 contra Juliana, que buscará a reeleição – Imagem: Divulgação

Mais um cenário que começa a se desenhar para 2028, após a eleição de domingo, é o de Balneário Camboriú. A prefeita Juliana Pavan (PSD) tem sido bem avaliada pela população. Tem ao seu lado não somente o deputado estadual Carlos Humberto Silva (PL), mas também o próprio Partido Liberal, que está na sua base. Vale lembrar que Juliana fez campanha pela reeleição de Silva e pela eleição de Carol de Toni (PL) ao Senado, além de manter uma boa relação com o governador Jorginho Mello (PL), embora tenha apoiado João Rodrigues (PSD). Porém, terá provavelmente um adversário de peso, que é o ex-prefeito Fabrício Oliveira (Republicanos), que não se elegeu, mas fez, somente em BC, 20.998 votos. Pela esquerda, é possível que o vereador Eduardo Zanatta (PT) seja um possível candidato. Ele fez 5.989 votos no município para deputado federal.

Apoio

Cury deve anunciar apoio a Flávio Bolsonaro – Imagem: Avante

Uma fonte aqui de Santa Catarina, ligada a Augusto Cury (Avante), informou que o escritor, que disputou a Presidência da República, deverá anunciar na próxima semana apoio a Flávio Bolsonaro (PL).