
Estamos chegando ao fim das eleições. No próximo domingo, o Brasil conhecerá o seu futuro presidente da República. Os dois polos escolheram seus candidatos, e o centro não conseguiu espaço para chegar à etapa final. Lula ocupou o campo da esquerda; a família Bolsonaro domina o campo da extrema direita. São posições demarcadas pela polarização: os dois lados pouco se falam, pouco se toleram e pouco colaboram.
É a polarização política em seu nível mais alto. E ela traz problemas sérios. O primeiro deles é a erosão da confiança entre as pessoas, entre cidadãos e governos e entre a sociedade e suas instituições. Parte da direita desconfia, por exemplo, permanentemente das urnas eletrônicas; parte da esquerda desconfia da grande mídia nacional. Cada lado escolhe sua instituição suspeita.
Num passado não muito distante, forças de esquerda, de centro e de direita colaboravam na construção de projetos benéficos para a coletividade. Havia troca de experiências, de ideias e de propósitos. Discordava-se, mas conversava-se.
Hoje essa realidade praticamente desapareceu. A distância entre os campos políticos é enorme, e o modo como se relacionam se degradou. O adversário passou a ser visto como ameaça existencial: tudo o que o lado oposto propõe é desastroso ou ilegítimo. Ninguém confia em quem não compartilha as mesmas crenças, os mesmos valores e a mesma origem. Esse é o terreno fértil para o autoritarismo.
As consequências são graves. Aumenta a violência política. Cai a participação cívica de quem não se identifica com nenhum dos polos. As políticas públicas passam a ser guiadas por dogmas ideológicos, não por evidências científicas. Perdoa-se o corrupto, desde que seja do nosso lado. As instituições são contaminadas e perdem credibilidade. Os partidos deixam de cooperar. E abre-se espaço para medidas populistas.
No fim, quem perde é o país. O Brasil desperdiçou a oportunidade de discutir a sério os seus problemas e as possíveis soluções. E isso é exatamente o que ele mais precisava.
