O vereador Castor e o burro: o retrato da campanha que “deselegeu” Flávio Bolsonaro


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Jean Carlo Lima

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Os influencers da campanha de Flávio ajudaram a virar votos para Lula.

Na microfísica do poder no Paço, o vereador Castor, ao lado do burro, foi a imagem mais emblemática do segundo turno. Ao menos sob o prisma da estratégia eleitoral, o burro, de fato, estava do lado certo. Quem diz isso são os números: em Lages, Lula aumentou sua votação no segundo turno em quase três para um em relação a Flávio.

Para contextualizar, no núcleo da campanha de Flávio, o coach Pablo Marçal participou com declarações consideradas prepotentes, como falas sobre não precisar dos votos de outros candidatos a presidente. Nikolas Ferreira, ao seu estilo provocativo, contribuiu negativamente com um vídeo sobre a “pobreza” no Nordeste. Já em Santa Catarina, Júlia Zanatta estalou o chicote nas ruas e recebeu várias interpretações. Em Lages, Castor, nome da campanha de Flávio na Serra, esteve com um burro, uma abóbora e ironizou o pão com mortadela.

Embora protagonizadas por figuras diferentes, essas ações reproduzem uma estética de grupo: comportamentos que se espelham, verticalizam e encontram eco na comunicação da campanha. Nesse aspecto da eleição, uma coisa ficou clara: a rejeição ao bolsonarismo pode ter superado a rejeição ao governo Lula, especialmente entre eleitores pêndulo — geralmente moderados — que não se identificam com esse estilo de atuação política.

No caso do nosso vereador patriota e cristão evangélico de classe média, debochar do pão com mortadela talvez não tenha sido a melhor estratégia para conquistar votos em um país onde 15% das pessoas passam fome e 50% não têm acesso a três refeições por dia. Deboche gera raiva, e raiva gera rejeição.

Para completar, o humor macabro de quem usa um caixão, com o corpo do oponente dentro, em um cenário de carnaval fora de época, pode parecer inofensivo. Entretanto, quando, no momento do revés, mudam-se o tom e o semblante, e se recorre a Deus para, só então, dizer que se respeitam as pessoas, a postura é, no mínimo, incoerente.

Ao contrário do que muita gente diz, não acho que os institutos de pesquisa necessariamente erraram. Era difícil antecipar um resultado tão fora da curva, especialmente diante da expressiva maioria conquistada pelo bolsonarismo no Congresso e no Senado.

Em poucos dias, era difícil imaginar que André Janones, que quase ficou pelo caminho, conseguisse se tornar um dos nomes de destaque dessa eleição, mobilizando pessoas na missão de virar votos por meio do grupo “Exército de Lula”, ao qual se atribui a marca de 10 milhões de seguidores.

Esse foi o presente de grego para a campanha de Flávio: uma lição à soberba de Marçal e ao oba-oba dos políticos influencers, que comemoraram a vitória parcial do primeiro turno dançando o funk do “quem ficar parado é petista disfarçado”.

Aos influencers de Lages, políticos e de ofício, fica o aprendizado de um Centro Serra lotado: política não é micareta nem exibicionismo vazio. Campanha é guerra, e guerra se vence com estratégia e disciplina. No final, ganhou quem trabalhou até o último dia para virar votos, enquanto outros comemoravam antes da hora. Aliás, antecipar a comemoração foi o último exemplo do que não fazer em uma campanha.