“A banca sempre ganha” não é um provérbio de jogador derrotado. É uma especificação de engenharia. Todo jogo de azar comercial nasce com uma margem embutida a favor de quem o oferece, e essa margem é o produto. O resto, as cores, o som da moeda caindo, o tigre que gira na tela, existe para que o apostador demore o máximo possível a fazer a conta.

No Brasil, essa conta agora tem tamanho conhecido. Levantamento do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda, feito sobre dados do Banco Central, calcula que as famílias brasileiras perderam R$ 62,5 bilhões em apostas em 2025. No período examinado pelo estudo, de outubro de 2024 a março de 2026, passaram R$ 351 bilhões por Pix em direção às casas de aposta. Perder, aqui, tem o sentido literal: dinheiro que entrou e não voltou.

Olhemos de quem era esse dinheiro. O Banco Central identificou que beneficiários do Bolsa Família transferiram R$ 3 bilhões para casas de aposta em um único mês de 2024. O gasto médio de quem recebe o benefício ficou em torno de R$ 100 mensais, o equivalente a quinze por cento do que a família recebe do programa. Entre 2018 e 2024, a fatia das apostas dentro do orçamento de lazer das classes C, D e E saltou de dez para trinta e oito por cento. Não se trata de excesso de entretenimento. Trata-se de um orçamento doméstico que trocou o cinema, a cerveja de sábado e a festa de aniversário por um aplicativo que devolve menos do que recebe por desenho.

O peso desse dinheiro, evidentemente, não se distribui por igual. Em valor absoluto, quem ganha mais aposta mais. Em proporção do que entra em casa, o estrago se concentra embaixo, e é ali que ele vira consequência. Quinze por cento de um benefício do Bolsa Família e uma fração de um salário alto podem render cifras parecidas na planilha do setor, e produzem realidades que não se parecem: uma delas é a conta de luz que atrasa. Um estudo do Ibevar com a FIA mediu o efeito disso sobre o endividamento das famílias e encontrou um coeficiente cerca de três vezes maior para as apostas que para os juros ao consumidor. Escrevi nesta coluna, semanas atrás, sobre o brasileiro que compromete a renda com parcelas. Havia algo pior acontecendo em paralelo, e com menos barulho.

O custo não para no dinheiro. No anúncio da proibição, o Ministério da Saúde apresentou uma estimativa de cerca de R$ 38 bilhões anuais de despesa do sistema com os efeitos do transtorno do jogo, e apontou entre essas pessoas uma taxa de suicídio muito superior à da população geral. Cada número desses corresponde a uma casa onde alguém escondeu extrato, mentiu sobre salário, vendeu o carro, pediu dinheiro emprestado ao irmão pela terceira vez. Quem trabalha com educação financeira ouve essas histórias com uma frequência que deveria envergonhar o país.

Em Santa Catarina, o Procon registrou alta de 10,9% no endividamento associado a plataformas de aposta, que hoje figuram entre as principais causas de dívida no estado. São cerca de trezentos casos acompanhados pelo órgão somando mais de R$ 20 milhões, quase cinquenta processos abertos e mais de duzentos atendimentos, concentrados em três queixas: demora na autoexclusão, prêmio anunciado e não pago, e publicidade. Brusque chegou a propor lei para restringir anúncio de aposta em espaço visível da rua.

Vale recuperar como chegamos aqui, porque a linha do tempo explica muita coisa.

Em 12 de dezembro de 2018, ainda no governo Michel Temer, a Lei 13.756 criou a aposta de quota fixa e deu ao Executivo dois anos para regulamentá-la. Entre 2019 e 2022, no governo Jair Bolsonaro, o prazo venceu sem regulamentação, e as plataformas cresceram a partir do exterior, patrocinando clubes e ocupando o intervalo dos jogos. Em julho de 2023, o governo Lula editou a Medida Provisória 1.182, convertida na Lei 14.790, sancionada em dezembro daquele ano, que trouxe as casas para dentro de um mercado autorizado mediante outorga de R$ 30 milhões por cinco anos. Em 2024 veio a Secretaria de Prêmios e Apostas, com a proibição do cartão de crédito e do bônus de entrada. Em 1º de janeiro de 2025 o mercado regulado entrou em operação. Em julho de 2026 saiu a plataforma centralizada de autoexclusão. E em 25 de setembro de 2026, a Medida Provisória 1.394 proibiu tudo.

Entre a lei que liberou e a medida que proibiu passaram-se sete anos e quatro governos, dois deles do mesmo presidente que agora assina a proibição.

No meio do caminho houve uma CPI, e ela merece parágrafo próprio. A Comissão Parlamentar de Inquérito das Bets funcionou por sete meses no Senado, realizou vinte e uma reuniões, convocou mais de cento e cinquenta pessoas e efetivamente ouviu dezenove, das quais seis sequer compareceram. Dos cento e noventa e dois pedidos de quebra de sigilo, aprovou cerca de metade. Em 12 de junho de 2025, o relatório final, que propunha o indiciamento de dezesseis pessoas, foi rejeitado por quatro votos a três. Foi a primeira CPI em uma década a não aprovar o próprio relatório. As propostas legislativas que a acompanhavam foram arquivadas. Sete meses de trabalho parlamentar produziram, ao final, um arquivo.

Restou também uma cena. Durante o depoimento da influenciadora Virginia Fonseca, uma das investigadas, o senador Cleitinho Azevedo interrompeu os trabalhos para lhe pedir uma foto, destinada à filha. Mais de um ano depois, com a CPI encerrada e sem relatório, o mesmo senador voltou à tribuna para dizer que havia sido, nas palavras dele, um idiota. Contou que mudou de ideia depois de conversar com um homem que havia desenvolvido dependência em apostas e quase perdido a família, e que lhe cobrou justamente aquele episódio. É a única retratação que aquela comissão produziu, e veio de fora dela.

Chegamos então à parte eleitoral, e aqui peço licença para desagradar os dois lados.

A Medida Provisória foi anunciada em 25 de setembro, nove dias antes do primeiro turno. Pelo cronograma oficial, os depósitos cessaram de imediato, os saques seguem permitidos até as 23h59 de 5 de outubro, e os sites saem do ar em 6 de outubro. A eleição é em 4. Quem redigiu esse calendário teve o cuidado de garantir que a proibição fosse anunciada antes do voto e consumada depois dele.

A reação do principal adversário veio no mesmo fim de semana, em publicação nas redes e em vídeo de campanha. Flávio Bolsonaro chamou a proibição de “estelionato eleitoral” e de “solução fajuta”, classificou Lula como “um oportunista” e disse que, se o presidente estivesse minimamente preocupado com o assunto, não teria autorizado as bets a funcionar dois anos antes. Acrescentou uma conta, de que o governo já teria arrecadado mais de R$ 20 bilhões com o setor desde a regulamentação.

O melhor argumento dele, porém, não está na adjetivação. Medida provisória vige por sessenta dias e admite uma única prorrogação por igual período, de modo que a proibição caduca em cerca de quatro meses caso o Congresso não a converta em lei. A essa altura a eleição terá passado havia muito. E o Congresso a quem caberá decidir é o mesmo cuja comissão de inquérito sobre o assunto terminou em arquivo.

A crítica tem fundamento e vem do lugar errado. Tem fundamento porque proibir em véspera de eleição um setor que o próprio governo regulamentou é, de fato, ato de campanha. Vem do lugar errado porque o candidato que acusa dispôs dos mesmos sete anos, de uma bancada numerosa e de um governo inteiro entre 2019 e 2022, período em que o prazo legal de regulamentação venceu sem que ninguém o cumprisse e em que o setor se instalou no país à vontade. Ele promete manter a proibição se eleito, o que é uma boa notícia e uma confissão simultânea: se o assunto é assim tão grave a ponto de merecer continuidade, era grave também quando havia tempo de tratá-lo sem plateia.

Falta o incômodo que ninguém quer mencionar, e que é o motivo pelo qual desconfio de conversão súbita: o Estado brasileiro é o maior operador de jogo de azar do país. Em 2025, as Loterias Caixa movimentaram R$ 25,1 bilhões e repassaram R$ 12,2 bilhões a seguridade, segurança pública, esporte, cultura e educação. As bets, no mesmo ano, tiveram receita bruta de R$ 36,95 bilhões e transferiram R$ 14,45 bilhões ao poder público. São dois negócios com a mesma mecânica, margem embutida a favor da casa e prêmio improvável vendido como possibilidade, separados sobretudo por quem fica com a diferença.

A raspadinha comprada na padaria opera pelo mesmo princípio do tigre que gira na tela, apenas mais devagar e com estética mais simpática. Ao fim de 2025, os canais digitais já respondiam por vinte e três por cento da arrecadação das Loterias Caixa, o que significa que o apostador expulso do aplicativo privado encontrará, do outro lado da mesma tela, um aplicativo público disposto a recebê-lo. E a expansão continua: depois de o Supremo derrubar um entendimento de 1967, os estados passaram a poder explorar loterias próprias. Santa Catarina sancionou a sua em 12 de janeiro de 2022, com receita destinada a programa habitacional. O mesmo estado cujo Procon persegue as plataformas de aposta prepara a sua casa de apostas oficial, com a diferença de que esta terá finalidade social escrita na lei.

Há ainda o futebol, que entrou em alvoroço no instante em que a medida foi anunciada, e com motivo. Mais de trinta clubes das três primeiras divisões dependem de patrocínio de casas de aposta, entre eles quatorze dos vinte times da Série A. Em 2025 esse dinheiro somou cerca de R$ 1,1 bilhão e responde por perto de oito por cento da receita dos clubes, chegando a R$ 268,5 milhões em um único contrato, o do Flamengo. O governo já chamou os dirigentes para conversar, e eles alertam para o crescimento do mercado ilegal. O assunto tem tamanho próprio e fica para uma próxima coluna, eu prometo.

Dito tudo isso, e apesar do oportunismo evidente do calendário, a conclusão que me parece incontornável é que as bets precisam mesmo ser proibidas. Sete anos de evidência mostraram que a regulamentação não domesticou o produto, porque o dano não está no desvio, está no funcionamento normal: um aplicativo desenhado para ser usado muitas vezes ao dia, com aposta de valor baixo e recompensa aleatória, produz dependência com a mesma eficiência com que produz receita. Não há alíquota nem limite de depósito que corrija isso.

E a proibição, sozinha, resolve pouco. O mercado ilegal já existe, com mais de quarenta e um mil plataformas irregulares autuadas apenas em Santa Catarina, e tende a crescer exatamente na medida em que o legal desaparecer. Sem bloqueio de meio de pagamento, sem responsabilização de quem anuncia e sem cooperação internacional, a medida trocará um setor fiscalizado por outro invisível. Combater isso dá trabalho, não rende palanque e não cabe em nove dias.

Quanto às loterias, ficam de pé, com o selo do Estado e o dinheiro carimbado para boas causas. É uma incoerência que atravessa governos e ideologias, e sobre a qual nenhum dos candidatos foi questionado nesta campanha.

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